Preparativos…

Estamos naquela fase de planejamento de viagem, lendo os relatos de outros cicloturistas, pesquisando guias, consultando nossos Gurus… uma fase de incertezas, indecisões, indefinições, mas vamos ao que já resolvemos, por hora, pois tudo pode mudar…

Resolvemos continuar nossa viagem pelo litoral brasileiro, pois em viagens anteriores fizemos de Paraty à Cananéia, passando por Ilha Bela. Nossa meta é continuar a partir daí. Então começaremos em Cananéia, iremos para lá de ônibus e retornaremos de onde paramos.

No início pensamos em descer (pelo mapa) até Florianópolis, mas já estamos pensando em continuar até a praia mais próxima de Porto Alegre, Capão da Canoa.

Estamos pensando em passar o aniversário de Aninha, 21 de novembro e voltar antes do Natal. Logo, sair em 22/11 e voltar 23/12.

A estimativa é pedalarmos uns 1.200 quilômetros. Voltar de Porto Alegre de ônibus ou avião.

Para os preparativos adquirimos o Guia do Paraná de Olinto e Rafaela, pois pensamos em pedalar em Curitiba e fazer um percurso por Guaraqueçaba.

Acompanhamos o relato do Guia do Viajante,  sobre a cicloviagem de Cananéia à Gramado, também os relatos do casal do Ciclo Terra, que passaram por lá e continuaram descendo pelo litoral.

Falta pouco tempo e bastante coisa para preparar… mas, vamos lá.

Sobre nossos “treinos”, nestes últimos meses intensificamos nosso preparo físico. Ana tem jogado futebol as quarta e sábados, eu tenho praticado corrida, cerca de 3 vezes por semana. Além disso, temos procurado pedalar com mais frequência, no início fizemos alguns pedais de 20 quilômetros, depois uns de 50, como este realizado até Paranapiacaba, onde não víamos um palmo em nossa frente.

Nessa última semana fizemos um roteiro por trilhas, passando por Paranapiacaba, pela Índio Tibiriça e por terra até a Estrada dos Fernandes, cerca de 70 quilômetros. Por trilhas    muito bonitas, parecia até que fazíamos uma cicloviagem.

Primeira Fronteira – De São Sebastião à Paraty

Diário de Bordo:

Reconhecendo…

Como fomos “forçados” a permanecer mais um dia em Paraty, recorremos mais uma vez ao centro histórico pra passear. Fomos então visitar a Casa da Cultura de Paraty. De fato, por vezes, as “histórias oficiais” são sempre muito chatas por só contarem parte da história, negr@s, indígenas, crianças e mulheres em geral quase nunca tem suas vozes ouvidas. Sendo assim, sem grandes expectativas fomos visitar o local…

Logo na bilheteria fomos informad@s que estava havendo a mudança da mostra temporária, o que nos possibilitaria conhecer apenas a mostra permanente. Pagamos menos pelas entradas e ganhamos um livreto sobre a casa.

Adorei a mostra permanente.

 

Encontramos por lá a vida de Paraty, que até então não tínhamos visto nas movimentadas ruas repletas de turistas. Através de uma exposição de fotos e áudio, moradores da cidade nos contavam suas histórias e relação com a cidade. Passamos um tempão por lá ouvindo um monte dele(a)s.

Depois das muitas aulas passamos a apreciar mais a “cidade cenográfica” com ares de museu a céu aberto.

Pena que para alguns, a escravidão não passou…

No outro dia foi “botar a bicicleta no saco” e voltar pro nosso lar doce lar.

Até a próxima.

Cruzando fronteiras

Choveu por toda noite. Levantamos, tomamos café e arrumamos nossas coisas. Cobrimos nossos alforjes com as capas, vestimos nossas capas de chuva e lá fomos nós, roda-na-lama. O tempo todo pensando em voltar um dia para esse pequeno paraíso.

A estrada estava tranquila, com suas subidas e descidas. Fomos contando os quilômetros até chegar à divisa de Estado. Chegamos ao fim de São Paulo. Percorremos, em outras viagens os trechos de Peruíbe à Ilha Bela e de Peruíbe à Cananéia. Agora só falta pedalar o trecho até o Paraná e completamos o litoral de São Paulo.

Na serra paramos em uma cachoeira, um local de uma natureza privilegiada, mas com pouca estrutura, apenas um barzinho de madeira, mesmo assim muitas pessoas paravam para apreciar a paisagem.

Chegando ao Rio de Janeiro uma descida daquelas apressou nossa chegada, deslizamos pela estrada que foi deixando de ter acostamento. Mais a frente, em um trecho da estrada havia uma obra que fechava meia pista, os funcionários deixavam passar os carros de um lado, por uns 2 quilômetros, depois abriam o outro lado para os carros que vinham na direção oposta. Passamos cumprimentando os funcionários e seguimos, a pista era estreita e os carros nos pressionavam para ir mais rápido, os carros nos passaram e houve certa tranquilidade, mas no meio do percurso os funcionários abriram a passagem do lado oposto, sem esperar que chegássemos, os carros vieram de frente, um caminhão passou muito perto de nós.

Irresponsável essa postura dos funcionários, eles estavam se comunicando por rádio, nós estávamos transitando com nossos veículos e mesmo assim fomos desconsiderados em nosso direito à segurança.

Passamos por Trindade (algumas cenas e um tostão da voz de Ana), local que conhecemos em outra pequena ciclo-viagem. Daquela vez fomos apenas de Paraty à Trindade, chegamos muito cedo em Paraty e o que vimos nos pareceu sem graça, estávamos interessados em praia e a cidade não nos encantou.

Procuramos algum lugar para ficar, chegamos a um hostelling e só tinha um quartinho apertado e escuro para ficar, topamos, desfizemos as malas, almoçamos em um restaurante por quilo e fomos dar uma volta.

Resolvemos conhecer essa cidade histórica, que teve seu auge no império, local onde chegava o ouro vindo da exploração das Minas Gerais. Conforme descreve Eduardo Galeano em seu livro “As veias abertas da América Latina”, a riqueza extraída das terras sustentaram uma falsa-riqueza da cidade (ouro de tolo), ouro que seguia para Portugal, que por sua vez usava-o para comprar produtos ingleses, que investiam na produção de fábricas e máquinas, dessa forma se desenvolvia o início da produção capitalista. Assim, esse ouro, nosso ouro, é responsável pela riqueza da Europa e seu desenvolvimento. Assim que acabou a exploração do ouro, Paraty e as demais cidades foram abandonadas, sem nenhum desenvolvimento, obrigando seus habitantes a viverem do turismo.

As famílias da região, por falta de recursos se afastam cada vez mais da cidade, surgindo casas de veraneio em seus lugares.

Os antigos casarões viraram pontos turísticos, quase todos lojas e restaurantes.

Chegamos ao museu da cidade, mas estava para fechar, resolvemos deixar para conhecê-lo em outra ocasião.

O mar é parado, quando a maré sobe preenche boa parte das ruas.

Pensamos no ilustre morador Amyr Klinc (cem dias entre o céu e o mar) e em como esse ambiente deve ter influenciado sua paixão pelo mar.

Nossa intenção era ir embora no dia seguinte, domingo, mas na rodoviária nos disseram que não havia mais passagem, só para segunda-feira de manhã, fazer o quê, né?

À noite fomos jantar na cidade, que estava lotada, os bares e restaurantes cheios e caros.

Ubachuva…

Após um dia lindo de sol, Ubatuba resolveu fazer juz ao seu apelido mais conhecido… foi inacreditável, choveu o dia inteirinho que Deus deu… e se quer batemos fotos ou filmamos o local enquanto o sol paiarava sobre nós, tamanha a ânsia de praiar no dia anterior…

O jeito vai ser voltar lá em outra ocasião, fazer o que, mas neste dia ficamos na soneca, com visão privilegiada: de frente pra chuva…

Um pedaço de paraíso

Saímos pela manhã e fomos pedalando pelas praias, estava ensolarado, passamos pela praia que ficamos no dia anterior e seguimos de olho no GPS.

Ubatuba é uma cidade pequena e bonita, com uma natureza muito preservada. Logo chegamos na estrada, com muitas subidas e descidas, só 35 km nos separavam de nosso destino…

A estrada era bem vazia, com bom acostamento, cheia de paisagens fascinantes.

Chegamos em Ubatumirim e seguimos as dicas para chegar a pousada e valeu a pena… o lugar era mesmo lindo. Estavam reformando, então a cozinha coletiva não estava liberada. A moça que nos atendeu foi muito simpática e nos concedeu o melhor chalé da pousada, frente pro mar, tudo de bom.

Nos ajeitamos e aproveitamos a praia, o dia estava quente e o céu azul, o mar estava bom, a água limpa e sem ondas. O lugar era deserto, caminhamos um pouco e chegamos a uma vila de pescadores de classe média, com trailers e cabanas, poucos bares, o que levava os preços ao abuso, uma cerveja R$ 6,00.

O dia estava tão perfeito que achamos melhor ficar mais um pouco, reservamos para mais um dia, o lugar valia a pena. Durante a noite caminhamos um pouco, mas a escuridão nos fez voltar logo pra casa.

Vamos ver o mar.

Logo pela manhã tentamos resolver a pendência com a hospedagem em Ubatumirim e consegui falar com Dânia, dos Chalés Villa do Mar, que nos atendeu prontamente. Ela gostou da nossa viagem de bicicleta e resolveu nos dar uma forcinha nos concedendo ficar por lá apenas uma noite (só aluga os chalés por no mínimo duas diárias), e também nos concedeu lençóis, o que não acontece normalmente, sendo que os hóspedes é que tem de levar roupa de cama. Então fica a dica cicloturística de hospedagem: http://www.ubatumirim.com.br/ (na próxima postagem se lerá que vale à pena a estadia também para família, casal, amigos, etc.). Aproveitamos também pra ir até a lavanderia e em seguida fomos conhecer alguma praia em Ubatuba.

De posse de um mapinha da cidade, fomos até a Praia de Perequê Açú, bem perto do Centro. Tava até quentinho, mas o sol estava bastante tímido e não animou a dar um tibum, mas uma porçãozinha na beira do mar é sempre uma boa pedida.

Em seguida ainda voltamos pra um pedaço de paraíso que fica logo depois do Aquário, sentido centro: na beira mar há uma calçadão com bancos, uma linda ciclovia, vários equipamentos para as crianças brincarem, restaurantes e hotéis. A ausência de carro deixa tudo mais bonito mesmo. A rua só fica lá atrás, assim o barulho do mar fica sem concorrência.

Eu também quero morar de frente pro mar…

Um dia de bem cuidar, da saúde física e mental.

Até Ubatuba…

De Caraguá à Ubatuba são 60 quilômetros… algumas subidas… fomos pela praia o máximo que deu, depois fomos para a estrada, mas logo de cara o pneu furou…

Um rapaz parou com seu carro e nos ofereceu ajuda… mas não foi preciso, sempre andamos com o kit gambiarra. A viagem de bicicleta sempre atrai solidariedade, as pessoas sempre conversam, cumprimentam, perguntam algo, acho que sentem-se próximas, sei lá.

A estrada era boa, com acostamento e alguns  mirantes… em um deles conhecemos Tereza, uma ciclista que estava levando algumas pessoas de carro para conhecer uma cachoeira, ela nos ofereceu hospedagem em Ubatuba, foi super atenciosa, chamou para jantar e tudo, pediu para ligarmos mais tarde.

Acho que o litoral norte tem algumas praias que estão, tranquilamente, entre as mais bonitas do país. E uma coisa boa em Ubatuba é que, de certa forma, conseguiu se manter preservada, sem aquela verticalização de Caraguá.

Estávamos passando por uma ponte sobre um rio, com uma praia linda ao lado…

Resolvemos almoçar, levamos as bikes até a praia por uma pequena trilha, estendemos a canga, que pena que não estávamos preparados para um mergulho, só deu pra molhar os pés… comemos o lanche e prosseguímos viagem.

Chegamos ao centro e procuramos por algum hotel ou pousada. O bom de estar fora de temporada é que estão todos com vagas e sujeitos a pechincha. Ficamos em um belo hotel no centro por um preço camarada.

O bom de ficar no centro é estar próximo a tudo, mercado, banco. De modo a termos acesso a qualquer coisa que precisemos. Dormimos um pouco e fomos comprar alguma coisa para comer.

Mais tarde tentamos ligar para a ciclista, mas ninguém atendeu, saímos até uma lan house para procurar informações sobre o restante da viagem, ao que sabíamos, o pior trecho era de Ubatuba a Paraty. Um rapaz do hotel disse que fazia esse percurso de bate e volta, outros diziam que havia uma serra terrível e que no caminho não tinha nada para ficar, só camping.

Pesquisamos e encontramos algumas opções o camping da Zita e um lugar chiquetozo que devia custar o olho da cara. Só que o telefone do lugar só atendia até as seis da tarde e não conseguimos mais ligar, queríamos sair cedo no dia seguinte, mas ficamos com medo da serra, achamos melhor dormir mais uma noite ali e no dia seguinte acertar a questão da hospedagem.

Fomos então procurar um lugar para jantar, ficamos em um restaurante muito simpático, que serviu um monte de comida e ao final fomos obrigados a levar as sobras para o hotel.

Pra aquecer as pernas

Escolhemos fazer esse trecho do litoral pela infraestrutura local. Sabíamos que, por nosso despreparo físico, algo que nos exigisse mais (como a Estrada Real, que pretendíamos percorrer) poderia deixar o passeio e nossas férias mais cansativa do que prazerosa. Temos aprendido a controlar a ansiedade e não querer bater nenhum récorde, apenas viajar de bicicleta, reconhecendo nossos limites.

Para o primeiro dia de pedal, não passaríamos dos 30 km… uma pequena serrinha pelo caminho e um trecho sem acostamento que já havíamos observado do ônibus, seriam nosso maior desafio.

Sem passagem...

É impressionante o descaso com a vida. São apenas 100 ou 200 metros onde pedestres e ciclistas não tem respeitado seu direito de ir e vir com segurança. Mas é preciso vontade política pra essas coisas acontecerem, era só botar o gradil (onde estou sentada) pra dentro da pista e fazer uma passagem decente para as pessoas, como manda a lei. Pra evitar maiores sustos seguimos empurrando as bicicletas, mesmo com poucos motorizados circulando.
Depois o acostamento volta até Caraguá.
 

Bem vinda Caraguá!

Já em Caraguatatuba seguimos pela orla que tem uma bela e longa ciclovia que vai até o centro. Nos surpreendemos com essa cidade, muito bonita, mas que infelizmente vem passando por um processo de verticalização e deve virar um formigueiro no verão.
 
O centro é daqueles bonitinhos com Igreja e coreto, como manda a tradição portuguesa católica.
 

Marcas da colonização por todo o litoral

 
Desta vez não levamos nossa barraca e nos demos o direito de ficar em hotéis mais carinhos…
Como chegamos bem cedo ao centro, escolhemos um hotel bem localizado e fomos às compras para a refeição do dia. É que pra economizar levamos nosso distinto fogareiro e toda tralha de cozinha… é claro que com isso infringimos a lei… mas é por uma causa que consideramos justa.
 

Cozinhando "muquiado" né!

Eu, "ajudando"... rsrs

Pós almoço, passeio na praia pra relaxar as pernas. O sol saiu bem timidozinho, só pra nos dar um oi.

Bicicletas sempre presentes na vida caiçara

Um passinho por vez....

São Sebastião

Começamos o pedal em São Sebastião, na praça central uma igreja, o que nos fez lembrar da colonização, da parceria entre os colonizadores e a igreja católica, quando da invasão européia nas terras dos povos da floresta. Nessas viagens sempre vemos as igrejas, nunca os templos budistas, os terreiros de candomblé ou as sedes da PL. Muito ouro destas terras foi para o Vaticano, ornamentar as ostentações católicas.

Chegamos na cidade de ônibus, desde a rodoviária do Tietê, inaugurando minha mala-bike, fomos bem atendidos pela empresa de ônibus, um motorista simpático, sem qualquer tipo de “cara-feia” pelas bikes. De início pensamos em passar a primeira noite na Ilha Bela, mas preferimos passar a noite por ali mesmo, no centro histórico de São Sebastião, afinal queríamos pedalar um pouco e vir em outro final de semana conhecer a Ilha.

Procuramos por hotéis e pousadas, encontramos uma pousada ao lado desta pequena igreja, um preço dentro das nossas expectativas, o quarto no térreo, podendo colocar a bicicleta, o que facilita, por não precisar tirar os alforges do bagageiro. Parecia um local tranquilo, mas no quarto percebemos que havia o som de uma festa ao fundo. Fomos nos informar e soubemos que o Almir Sater havia cantado lá na noite anterior, ou no final de semana passado, algo assim. Lamentamos que não fosse ele, quem iria cantar era um grupo que ninguém sabia o nome.

Na pousada conversamos com um rapaz que trabalhava na recepção que todos os dias ia de bicicleta de Caraguá a São Sebastião, ele nos deu algumas dicas do caminho e da serra que iríamos pegar no dia seguinte. Era um rapaz do Rio de Janeiro que veio para lá de bike e nunca mais voltou, morava em Caraguá e trabalhava ali na pousada, geralmente ia pra casa já de noite.

Fomos para o centro velho, comemos um lanche e fomos na festa, aliás eu comi meu lanche ali na festa mesmo. Uma festa junina para compensar o frio do inverno. Fomos andar, pois ainda era cedo, encontramos a população local na missa, entramos e o padre entregava a comunhão, Ana Célia recebeu a hóstia e ajoelhou-se emocionada, também me emocionei vendo as pessoas brilharem, a banda era boa e a música também.

Por sorte a banda que ia se apresentar não foi, ouvimos a orquestra da cidade tocando músicas populares e logo fomos dormir.