Na frieza da estrada…

Pensamos em estratégias para prosseguirmos viagem, ontem Ana foi até a rodoviária de Coronel Oviedo para ver a distância e constatou que era longe pra ir empurrando a bike, podíamos desmontá-las, colocá-las nas malas-bike e levá-las de táxi, mas nesse caso, ficaríamos com várias malas para carregar, enquanto que com as bikes montadas com os alforges só tínhamos as mesmas para empurrar. Pensamos em pedir um táxi e ver se conseguíamos colocar minha bike dentro.

Tomamos o café no hotel, deixamos o que sobrou de nossas compras com as meninas da recepção, não iríamos mais cozinhar, pagamos a conta e chamamos o táxi, o motorista foi atencioso, tentou colocar a bike no porta-malas, depois no banco traseiro e nada, dessa forma não havia outro jeito, Ana teria que ir pedalando as duas bikes, deixamos a minha no hotel, colocamos todas as malas no táxi, entrei no táxi e Ana foi com sua bike.

O táxi chegou rapidamente na rodoviária, procurei um banco para sentar, o motorista ficou esperando, quando Ana chegou deixou a bike comigo e voltou com o táxi para o hotel. Fique lá observando o movimento das pessoas e dos ônibus, vendedoras e vendedores circulando de-lá-pra-cá, com lanches, refrigerantes, bijuterias, relógios e tudo mais.

Ana voltou com minha bike, estava exausta, meu quadro era alto e ela não conseguia pedalar sentada, pedalava em pé e sentava nas descidas. Achávamos que o motorista do táxi iria nos enfiar a faca, mas não, apesar de não ter taxímetro nos cobrou um valor modesto. Compramos as passagens até Asunción, um rapaz da companhia ajudou com as bikes e quando o ônibus chegou ajudou a colocá-las nas bodegas.

O ônibus era confortável, com dois andares, fomos no andar de cima e boa parte da viagem fomos no primeiro banco vendo os acostamentos. Estranho como andar de bicicleta muda a perspectiva da viagem, naquele ônibus nem parecia que estávamos na estrada, era como estar em casa assistindo a televisão, não sentíamos o calor, o vento, os cheiros, tudo passando rapidamente pelas janelas do ônibus.

A paisagem era composta por muitas áreas rurais, fazendas imensas para poucas vacas e bois.

Chegamos na rodoviária, colocamos as coisas nas bikes, almoçamos, percebemos que os preços de Asunción eram mais altos que nas demais cidades, muitos preços, inclusive, eram em dolar.

Deixamos as bikes no guarda-volumes e fomos de ônibus até o aeroporto, usamos dois ônibus de linha.

O aeroporto era pequeno, subimos até o saguão e fomos ver se tinham passagem para São Paulo, na TAM fomos informados que não tinham mais passagens nem pra sexta, nem pra sábado. O preço para domingo era de oitocentos dólares por passagem. Haviam outras passagens, mas o vôo era de 16 horas, já que passava por Buenos Aires antes de ir para São Paulo.

Sentamos em um gostoso café próximo ao saguão lotado de brasileiros e acessamos a internet em busca de informações. Todos ali eram estudantes indo para o Brasil, uma fila enorme para embarque.

Pensamos em ir até Foz e pegar um avião lá, mas achamos que seria uma dificuldade levar as bikes para o hotel, depois para o aeroporto, seria muito complicado. Achamos que o melhor seria pegar um ônibus de Asunción à São Paulo, pela internet vimos um ônibus da empresa Puma, que saía no sábado ao meio dia. As bikes já estavam lá na rodoviária mesmo, seria tudo mais fácil.

Alugamos um carro ali no aeroporto, por 3 dias, ficou bem caro, mas foi o jeito. Saímos pela cidade, olhando pelo GPS e buscando pelos hotéis. Andamos por vários hotéis e os preços eram em dólar ou caros, mesmo em guarani. No centro velho encontramos um hotel que gostamos, confortável e num preço razoável. Reservamos por 3 dias.

Fomos até a rodoviária, perguntamos o preço para deixar as bikes na própria rodoviária e achamos que o preço era justo, pela economia de trabalho. Levamos os alforges, chegamos no hotel já tarde da noite. O estacionamento era na rua de baixo, guardamos o carro e fomos descansar.

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Ando devagar, porque já tive pressa…

Acordei me sentindo atropelada. Passada a tensão do dia anterior, e mesmo a gratidão por não ter havido nada mais grave, o corpo se deixara abater e a cabeça doía. Fiquei a manhã por também contabilizar meus arranhões e responsabilidades, sempre querendo alterar a cena do dia anterior, que de instante em instante me fazia gelar a barriga.

Também me deixei sentir tristeza por não completarmos a viagem, não imaginava quando é que poderíamos retornar ao Paraguai, se é que o faríamos…

Mas o dever (agora em dobro) me chamava, e Flávio possui muitas cotas de cuidados comigo, o que deixavam as tarefas mais fáceis de serem realizadas. Ele até já estava um pouco mais disposto e nós já desconfiávamos que seu nariz não estava quebrado, e sim, já era torto mesmo…

Como tínhamos que retornar ao hospital para trocar o curativo (mal feito) de sua mão, demos uma passadinha na prefeitura e na igreja da cidade para conhecer… ainda alimentando nossa ânsia viajante.

 

Em frente à Prefeitura, índia esmola com bebê no colo... é assim que se vê as índias bolivileiras da Sé.

Digamos que, com a invasão espanhola, a igreja se saiu "melhor"...

O novo curativo também se saiu um pouco melhor, só que agora ia até o pulso, e ainda ganhou uma tipóia pra ver se diminuía o inchaço da mão, que mais parecia um pão assado em dia de calor.

Voltamos logo ao hotel e eu, ao Supermercado que nos alimentou por esses dias. Um detalhe importante é que todas as vezes que estive por lá, era a mesma simpática “chica” balconista. Ia às 10h da manhã, era ela, ia as 10h da noite e a mesma moça… “Quantas horas você trabalha?”, “umas 12, todos os dias”, “mas quantas são permitidas por lei?”, “8”.

Não era a primeira vez que percebíamos essa enorme exploração do trabalho. No Hotel Germania, Mirta também saiu às 6 da tarde e as 6 do outro dia pela manhã, já estava lá pondo a mesa do café. O rapazinho  com cara do “quem quer ser um milionário”, do Hotel Cézar Palace, pelos vistos, também “vivia” no hotel…

Já pra noitinha, o rosto do Flávio, que ficou no gelo por estes 2 dias, já fazia menção que voltaria a seu formato normal rapidamente, já as cores iriam demorar mais um pouco… De toda forma, decidimos que continuaríamos a viajar, o que elevou os ânimos de nosso quarto e Flávio até mesmo se deixou fotografar novamente.

 

Conhecendo a estrada de perto…

A região de Caaguazú foi alvo de um plano de colonização do governo há anos atrás, mas segundo Galeano, em seu livro “As veias abertas da América Latina”, “oferece aos camponeses famintos mais tumbas do que propriedade” (p. 277). Ainda, segundo o autor,  1,5 por cento dos proprietários de terra dispunham de 90 por cento das terras exploradas, e se cultivava uma área equivalente a menos de 2 por cento da superfície total do país.

Uma das lideranças campesinas atuais é Maguiorina Balbueno, indicada ao prêmio Nobel da Paz de 2005, além dela mais 3 mulheres do Paraguay foram indicadas, tentamos entrar em contato com as mesmas, enviando mensagens eletrônicas, das 4 apenas Maguiorina nos respondeu. Dissemos que iríamos para Asunción e gostaríamos de fazer uma entrevista com ela que aceitou prontamente.

Na noite passada, do hotel enviamos um e-mail para Magui e dissêmos que estaríamos em Asunción dia 26 e gostaríamos de encontrá-la.

Pela manhã tomamos café no quarto, arrumamos os alforges e descemos, o café do hotel estava servido, tomei um cafezinho apenas e partimos, pegamos a estrada e seguimos em suas intermináveis subidas e descidas.

Nas descidas eu procurava soltar a bike e aproveitava o embalo para subir mais rapidamente, nestas horas passava Aninha, depois ia diminuindo as marchas até chegar a primeirinha, Ana me passava e continuávamos até a próxima descida. Nestas descidas chegávamos a 50 por hora, 52, 55 e lá ia eu tentando bater a última quilometragem.

O tempo todo íamos pelo acostamento, apenas em locais onde o acostamento era muito ruim ou as lombadinhas não tinham passagem é que íamos para a pista. Chegamos a uma descida onde lá em baixo vimos um estreitamento de pista, uma ponte sem acostamento, Ana saiu para o asfalto e segui atrás, ao mesmo tempo de olho o retrovisor, com medo de vir algum carro. Me sentia bem, peguei o embalo, embiquei para passar Aninha, comecei a pedalar, passamos a ponte, pensando em sair da estrada entrei no acostamento com tudo, só que com o tranco do degrau perdi o pedal, isso já me aconteceu outras vezes, de perder o pedal, mas era só deixar e o pé encontrava o pedal de novo, mas dessa vez minha roda de frente começou a balançar de um lado pra outro, no começo achei que ia dar pra segurar, mas não, a roda desequilibrou toda bicicleta, vi que ia cair, e cai, a primeira coisa que tocou o chão foi meu nariz, o resto veio atrás.

Não perdi a consciência, me estiquei no chão evitando me mexer, não sabia qual era meu estado, levantei a cabeça e vi Ana parando a bicicleta a uns 30 metros pra frente, sentei e vi que estava com sangue escorrendo pelo nariz, achei que o tinha quebrado, tirei os óculos que ficou todo riscado, mas creio que ajudou na proteção, tirei o capacete e as luvas, vi que a luva esquerda estava rasgada, ao tirá-la vi um furo profundo na parte posterior da mão, no ocinho entre os dedos médio e indicador, joguei água no rosto e usei a bandana para enrolar na mão que sangrava muito, ao mesmo tempo com ela enxugava o sangue que escorria do nariz.

Ana chegou e perguntou se estava tudo bem, depois correu para a estrada pedir ajuda, passaram uns dois carros sem parar, a seguir parou uma Saveiro. O rapaz deu ré e chegou perto de nós, me levantei e vi que minha camisa estava toda rasgada. O motorista e Ana colocaram as bikes na carroceria, entramos os 3 na frente e fomos. O rapaz perguntou o que queríamos fazer, ir para Oviedo ou voltar para Caaguazú, ele ia para Oviedo, tínhamos pedalado uns 20 quilômetros até a queda, mas sabíamos que Oviedo era uma cidade maior e calculamos que teríamos um melhor atendimento por lá. O nome desse rapaz era José e nos levou a um hospital Regional, ele deixou nossas bicicletas e partiu com nossa maior gratidão.

Fomos entrando no hospital, vimos uma placa de emergência e fomos entrando, uma moça disse que eu devia esperar em uma pequena sala ao lado, mas de lá outra me disse que eu devia entrar. Algumas enfermeiras vieram e começaram a limpar os ferimentos, pedimos que cortassem minha camisa, pois estava com vários furos e queríamos ver se não tinha mais nenhum machucado, a enfermeira não sabia direito o que fazer e cortou as mangas da camisa.

Meu rosto estava todo ralado, testa, nariz e queixo, também os joelhos e o dedo do pé esquerdo. Analisando os machucados, acho que não soltei o guidão ao cair, pois fiquei com marcas atrás das duas mãos, no lugar dos ocinhos dos dedos, a roda virou para a direita e o guidão para a esquerda, caí de frente mais para o lado esquerdo, bati o rosto e as mãos ainda segurando nas manoplas, depois devo ter rodado por sobre o ombro e caído deitado, pois bati também o calcanhar esquerdo.

Soubemos que o hospital estava enfrentando uma greve geral dos médicos, que atingia o país inteiro, apenas a emergência funcionava.

Fizeram uns curativos horríveis em minha mão, em meu dedão do pé e no joelho esquerdo, mas nossa preocupação maior era com o nariz, o médico me deu 3 pontos na mão esquerda e pediu para fazer um raio X da face, tomar uma antitetânica e receitou um antibiótico e um anti-inflamatório.

Enquanto esperava pelo raio-x, Ana foi com a bicicleta procurar por algum hotel próximo, caminhei pelos corredores do hospital vazio, era bem grande, procurei pela enfermaria que me aplicou a anti-tetânica, depois achei a farmácia que me forneceu um dos medicamentos, o outro devia comprar numa farmácia privada. Fui até o raio-x e aguardei, alguns pacientes mais graves foram atendidos na minha frente, depois foi minha vez. Havia várias pessoas acidentadas por moto e todos me perguntavam se também caí da moto, quando falava que caí da bicicleta faziam uma cara meio de espanto, não havia muito costume de pessoas andarem de bici, quanto mais caírem de bicicleta.

Com duas chapas de raio-x fui ao médico que constatou que não havia fratura, era só a luxação da cartilagem, sai de lá  esperei Ana voltar, enquanto isso fui na farmácia e comprei o remédio que faltava e material para fazer os curativos.

Ana chegou e fomos empurrando minha bike até o hotel, lá fiquei bem instalado e procuramos descansar, tomei um banho com auxílio da Aninha e dormi, depois ficamos pondo gelo no nariz para desinchar. Ao redor dos olhos foi se formando um roxo que completou minha alegoria.

Mais tarde avaliamos que seria melhor passar mais um dia no hotel e só na quarta-feira irmos de ônibus até Asunción. Ana comprou comida pronta em um restaurante do super-mercado a frente e passei o resto do tempo vendo TV, principalmente um canal do governo venezuelano, além de alguns canais brasileiros que pegavam por lá. A programação da TV paraguaia que vimos era muito ruim, com várias propagandas com erotização e coisificação das mulheres, forte apelo sexual e jogos e sorteios. Parecida com nossa TV aberta.

Pintura

Desta vez nem madrugamos tanto pois nossa quilometragem seria menor, apenas 35 km. Tomamos café no glorioso Hotel Germania, que nem estava tão glorioso assim. Aliás, herman@s Paraguai@s assim como @s Uruguai@s não valorizam a primeira refeição do dia assim como nós Brasileir@s, que em alguns hotéis temos um verdadeiro banquete.

 

Ditadura nunca mais!

Saímos finalmente com um dia nublado e até uma carinha de chuva lá no horizonte. A pedalagem saiu assim rápida e rasteira, com um bonito cenário de interior. A hospedagem em Estigarribia nos fez muito bem, aquele gostinho saboroso de férias que, às vezes, nos primeiros dias de viagem podem ficar mais nublados por conta da “adaptação”.

Caaguazu é uma cidade já bem grandinha e ficamos hospedados em um hotel mais bonito por fora do que por dentro, prefiro o contrário mas tudo bem. Não podíamos reclamar de hospedagem, o Paraguay estava saíndo-se melhor que a encomenda.

Por acordarmos tão cedo todos os dias, incorporamos um delicioso soninho pós almoço que tive o privilégio de usufruir até meus idos de Colégio Monsenhor, e matar as saudades nessa viagem. Já a tarde fomos a uma lan house botar as notícias em dia. Ao saírmos o céu anunciava uma tempestade, fazendo anoitecer mais cedo, e voltamos ao hotel para pedir comida de lá mesmo, já que nosso fogareiro nos disse adeus precocemente. Tava facim facim de cozinhar por ali.

Pós chuvarada pudemos presenciar um verdadeiro espetáculo de cores que as lentes de nossa câmera tentavam registrar. Fico pensando quantos desses perdemos por conta de nossa “mão de obra” vendida ao interesse alheio, ou mesmo por conta da poluição e dos muros de concreto que nos colocaram no horizonte em nossas grandes cidades…

Um pouco de férias…

Uma pedalada de 49 quilômetros até Dr Juan Eulogio Estigarribia, tomamos café no quarto, nos preparamos e antes de sair tiramos uma última foto do Hotel, com o telefone para quem se interessar.

As ruas são difíceis de pedalar, calçadas com pedras antigas, parecendo-nos as mesmas nos últimos 200 anos.

A estrada era como todas as estradas… reduto para pessoas armadas com seus carros… … não era muito movimentada, mas a velocidade dos carros era intensa. Dividíamos o acostamento com as motos que eram muitas, todos andavam de moto, crianças, idos@s, famílias inteiras (na mesma moto), motos carregando bezerros, madeira, móveis, pessoas sentadas de lado no banco, inacreditável.

O acostamento era bom, mas a cada 100 metros haviam pequenas lombadas, algumas nem tão pequenas assim, pareciam morrinhos, mas uma coisa muito legal acontecia, ao que parece as pessoas vinham com talhadeiras e cortavam as lombadas para as motos passarem.

Essa lombada não estava com o cimento muito bem tirado, mas certamente voltariam para terminar o serviço.

Aqui no Brasil nos acostamentos são colocadas peças com olho-de-gato usando da mesma lógica: evitar que os carros andem pelo acostamento, só que se esquecem de deixar um vãozinho para as bicis. Mas, ao que parece, esta estratégia paraguaia já vem sendo adotada por aqui, temos visto em algumas estradas com lombadinhas no acostamento, que as mesmas vem sendo retiradas para permitir a passagem das bicicletas. Creio que os próprios ciclistas tem se dado a esse trabalho, já que o DER não toma esta providência.

Apesar da língua oficial ser o espanhol a maioria da população fala mesmo o guarani e tivemos a bela surpresa de ver uma placa nessa língua milenar.

A paisagem em torno da estrada era muito bonita, gramados cobertos com a sombra de árvores e muitas redes de volei, mas em uma delas vimos que jogavam era futevolei e jogavam muito bem.

Uma coisa nos surpreendeu na paisagem, entre as grandes plantações de soja vimos uma fileira de placas de agrotóxicos, transgênicos e outras pragas modernas que destroem as plantações, patenteiam as sementes e envenenam as pessoas.

Inclusive, sobre esse assunto gostaríamos de recomendar o vídeo: O veneno está na mesa.

Na chegada à cidade encontramos 3 hotéis, o primeiro estava em reforma, o segundo era pequeno e o terceiro era o maior sonho de consumo. O preço muito bom, alguns milhares de guaranis, que para nós representava um valor baixo.

Chegamos não era meio dia, antes de mais nada pulamos na piscina, que tinha até hidro-massagem, depois fizemos nosso almoço ali mesmo, mas de repente o inesperado, nosso gás de tantas batalhas acabou. Normalmente costuma durar mais de uma viagem, pelo menos 2 semanas, mas ele devia estar com defeito ou já usado, quem sabe?

Ana pediu para a atendente do hotel, aliás todos eram muito simpáticos, para usarmos a cozinha do hotel, assim terminamos de cozinhar e comemos nossa bela refeição nesse lindo visual.

O quarto tinha no fundo uma pequena varanda, em frente a piscina, onde deixamos nossas bikes.

Vivemos um dia de férias e descanso, já a noite procuramos um lugar para jantar e encontramos uma churrascaria, bom preço, mas era estranho, como é interessante essas singularidades, o restaurante em todas as mesas tinham crianças, famílias com 4 filhos, todos loirinhos, ao nosso lado uma mesa que tinha um cercadinho para deixar os filhos. Usavam roupas antigas… as mulheres usavam cabelos compridos com presilhas… me lembrei do filme “A Vila”, parece que viviam isolados da civilização… talvez morassem no campo e viessem aos sábados jantar na cidade… nunca vimos tantas crianças num restaurante.

Enfim… vamos pedalar?

A noite mal dormida (as questões matrimoniais se deram nesta noite e não na anterior, como disse o Flávio, mas isso aqui já tá parecendo confessionário…) me deu intenções de rumar à leste nesta manhã, mas as 6h (horário local, com 1 hora a menos que o Brasil) já pedalávamos com destino a cidade de Juan Leon Mallorquim, distante 65 km. Para nossa surpresa, Ciudad del Este já se encontrava plenamente acordada, pelos vistos, não éramos os únicos a temer o sol…

Seguimos por uma via paralela à principal, que tinha maiores desníveis mas pensamos ser mais tranquila. Demorou pra conseguirmos sair da cidade e daquele caos urbano a que já estamos acostumad@s, para adentrarmos a terras mais tranquilas.

A culpa é do Fidel…

O primeiro dia de viagem já se mostrou bastante desafiador. Passadas as 10 badaladas o sol já se impunha todo poderoso, fazendo-nos render-lhe graças (ou seriam maldições?).

Avistamos uma caçamba de caminhão que havia sido feita em pequeno bar, com lanches e bebibas. Nos reabastecemos em água, Flávio comeu um lanche e eu tomei um suco, mas queria mesmo era jogar-lhe na cabeça a fim de refrescar. O calor me remetia às cenas do livro Vidas Secas, quando Graciliano Ramos se refere ao céu azul assustador.

Havia uma torneira atrás do caminhão e nem pedi licença para utilizá-la, mas só faltou sair-lhe fumaça. Que peste de férias são essas a que nos metemos não? Decidida a me refrescar, tirei a camisa (estava de top, claro) e a enxarquei na torneira. Torci só um pouquinho e a deixei à sombra. Antes de analisar os resultados Flávio já tinha feito o mesmo e já brigava para vestí-la novamente (não tente fazer isso sozinh@). Gostou tanto que já saiu molhando tudo o mais que podia ser retirado em público, eu fiz o mesmo. Ganhamos ao menos uma hora de frescor e experiência a ser utilizada em outras ocasiões.

À medida que adentrávamos ao país, alguns pré conceitos foram caindo por terra. O primeiro deles é de que o Paraguai é um país pobre. Creio que seja muito desigual, assim como o Brasil, mas pobre não é. Circula muito dinheiro por ali e quem o tem, passa bem, com carrões e palacetes assobradados.

Casinha básica na entrada da “pobre” Mallorquin…

Praticamente todas as cidadezinhas que passamos até ali passuiam hotéis e comércio com produtos similares aos nossos. Até poderíamos ter ficado em Yguazu, distante uns 40 km de nossa saída e ter feito uma quilometragem menor no primeiro dia de pedal efetivo, afim de ajeitar a carga no alforge, mas como era cedo decidimos continuar.

Já em Malorquim pudemos observar uma cidade típica do interior, que também possue suas riquezas como a tranquilidade e o barulho das crianças brincando na praça.

Almoçamos um arroz frio, costume dos Paraguaios, e um bifão que ocupava todo prato (o costume é comer-lhe com ovos por cima, mas eu dispensei os meus). Também tinha mandioca, que em espanhol se diz mandioca mesmo, e de postre tomei um helado que estava divino.

Tiramos um cochilo pós almoço e mais a tardinha fomos ao mercado e caminhar um pouco pela pequena cidade. Jantinha no quarto e dormir que amanhã tem mais.

Salto de Monday

O hotel era bem aconchegante, apesar de ser no andar térreo, possuía uma varanda que dava para o estacionamento. As bicicletas ficaram decorativas.

Na noite passada tivemos uma desinteligência matrimonial, resolvemos ficar mais um dia em Ciudad del Este, acordamos cedo tomamos café da manhã que, por sinal, não era tão bom como o brasileiro.

Pedalamos uns nove quilômetros até Salto de Monday, uma cachoeira das mais bonitas que já vi, a maior com 40 metros de queda, o parque era simples, com algumas reformas para serem implantadas, como a construção de um restaurante panorâmico com vista para as quedas.

Voltamos para a cidade, no caminho um rapaz de moto nos parou e convidou para tomarmos um tererê em sua casa, agradecemos o convite, mas nossa desconfiança  não permitiu, conversamos um pouco, nos despedimos e voltamos ao hotel. Fizemos o almoço, dormimos um pouco e mais tarde fomos ao mercado (o local mais visitado pelos Cicloturistas). Durante a noite fizemos o jantar, arrumamos as malas e colocamos o relógio para tocar as 4 horas (5 no Brasil).

Las Índias Mercantes

Embora a viagem fosse curta, acordamos bem cedo para atravessar a fronteira, com direito a toda a paramentação cicloturística. Gostaría de utilizar roupas mais normais pra pedalar, porém esta não tem se revelado uma tarefa fácil, e incorporei ao visual uns pernitos para me proteger do sol, o que me deixou com ares de extra terrestre mesmo…

Saindo da zona de conforto...

Algumas parcas pedaladas depois e já estávamos devidamente instalados na calçada para consertar meu pneu traseiro, que se quedava furado.

Troca de câmera realizada e seguimos pelas ruas de Foz com o auxílio do meu quase santo GPS, que comete sim alguns equívocos pelo caminho mas se tornou indispensável. De longe já avistamos a famosa Ponte da Amizade.

Quase lá!

O tumulto é meio assustador, pessoas, carros e motos, muitas moto táxi, pra todo lado, algo que não parece ter controle algum. E todas as pessoas estão com pressa, e vão se apertando, se infiando em cada canto que intencionem passar. Desmontamos das bicis e seguimos empurrando junto aos demais “peatones” até dar entrada no Paraguai oficialmente.

De lá pensamos ser hora de voltar ao pedal, e seguimos morro acima a fim de encontrarmos hospedagem já no sentido da saída para Asuncion. Pesquisamos em alguns hotéis bem próximos uns aos outros e os preços nos animaram bastante, pelo menos a metade dos preços praticados no Brasil, e com boa qualidade. Os dois melhores já não tinham vagas ao que ficamos em um mais simples, mas que satisfazia nossas necessidades.

Nos instalamos e voltamos à fronteira a fim de realizar o câmbio de moeda. As contas não seriam nada fáceis pois 1 Real corresponderia a aproximadamente 2.500 Guaranis.  Pela primeira vez na vida estávamos milionários.

Enfim... Milionári@s!!!

Segurança...

Saímos perambulando pelas abarrotadas ruas de Ciudad del Este atrás de um já famigerado gás para nosso fogareiro, que segundo informações recebidas em Foz, encontraríamos por ali. Rodamos todas as lojas da cidade até cansar… Até cansar mesmo, a ponto de rolar um stress conjugal. Então paramos em uma lan house para pesquisar e descobrimos que só o encontraríamos em Foz do Iguaçu. Flávio tomou novamente rumo brasileiro à bordo de uma moto táxi afim de realizar a aquisição…

À primeira vista a cidade é bastante descuidada. Em um local onde só interessa a melhor transação, o lucro desenfreado, a vida não parece ter muito valor. À fora as grandes lojas de ar condicionado, reina um calor sufocante de lixo pelas ruas, trânsito caótico, meninos trabalhando e mulheres semi nuas que lhe atendem à porta em uma loja de produtos de aventura.

Calçada???

Quem paga a conta???

Já a noitinha os afoitos compradores se vão, e podemos saborear a paz de uma refeição feita à varanda.

Itaipu

Seguindo o roteiro fomos conhecer a Usina de Itaipu, o sol escaldando, como sempre, pegamos um ônibus cheio de turistas até o centro e do terminal pegamos outro ônibus que nos levou à Usina.

Passaram um filme que me lembrou o regime militar brasileiro, aquele golpe do capital internacional patrocinado pelos EUA, regime que aliás iniciou essa coisa das grandes obras, acabou com a educação pública, matou e torturou tantas pessoas. Um filme ufanista e antiquado.

Enquanto seguíamos no andar de cima do ônibus panorâmico, conhecendo essa obra Bi-Nacional, construída pelo Brasil e o Paraguay, pensávamos nos impactos que obras como essas causavam ao planeta, nas chuvas, na temperatura. Sabe-se que as árvores submersas continuam liberando ozônio em grandes proporções até hoje. Além do impacto social, a aglomeração de homens em condições precárias de trabalho, num campo de obras, com pessoas que deixaram suas identidades em distantes cidades. Após a conclusão da obra a maioria destes trabalhadores se espalha em diferentes destinos, certamente deixando os filhos da usina para as mães cuidarem.

Fomos ao mercado e fizemos as compras para a viagem, mas não conseguimos localizar nenhuma loja onde pudêssemos encontrar o refil de gás para nossa cozinha. Compramos macarrão, arroz, caixas de feijão, cebola, alho, óleo, detergente, calabresa e leite em pó. Almoçamos no restaurante do mercado e fomos pra casa.

Ainda era bem cedo e pudemos curtir a piscina até a noite cair. Por fim, como não tínhamos o gás pedimos comida pelo telefone e comemos no hotel, com muita gentileza dos funcionários do hotel que nos ofereceram talheres e ainda lavaram a louça.