Terminando o roteiro

Apesar de não podermos pedalar, decidimos completar o percurso, passando pelas cidades programadas no nosso roteiro, pegamos o carro e fomos em direção a cidade de Aregua.

Durante o trajeto pela cidade ficamos observando o trânsito de Asuncion, pensando como seria pedalar por aqui. Era tão caótico como toda grande cidade, muitos carros, muitos ônibus, pouco respeito pelas pessoas. Levamos o GPS e fomos seguindo a estrada, passando por outros bairros, chegando a paisagem rural.

O ar condicionado nos protegia dos quase 40 graus, enquanto nos aproximávamos de Aregua, o ponto forte da cidade é um Parque com um lindo lago ou represa. Haviam muitas pessoas passeando pelo local, pagamos alguns guaranis pelo uso do banheiro, depois nos aproximamos da represa.

Uma paisagem de cartão postal, não tivemos coragem de entrar na água, apesar do calor e pensamos no quanto essa água seria bem vinda se chegassemos de bike, sem dúvida entraríamos de roupa e tudo.

Andamos de lá pra cá, observamos uma piscina que por ser paga, estava vazia. Mas também, pra quê piscina com essa água toda pra nadar.

De lá seguimos de carro para Caacupe, um local místico-religioso, no caminho, seguindo o roteiro de nosso antecessores, paramos para almoçar na Churrascaria Brasil.

Caacupe tem um quê de Aparecida do Norte, uma cidade de peregrinação, com sala de milagres, lojas de lembrancinhas e orações.

Uma enorme catedral, passamos pela imagem da Santa, colocamos nossas mãos nas marcas nas pedras, como faziam todos, fizemos nossa oração silenciosa, deixando entrar a mística do lugar.

Depois subimos por escadas que nos levavam para o alto da catedral, durante a subida íamos acompanhando um roteiro de imagens, fotos e desenhos que iam nos contando sobre a origem da Santa, uma história sobre a catequização dos povos indígenas, sobre um índio artesão que esculpiu a imagem. Uma história contada pelo dominador, pelo vencedor, atribuindo aos padres e a igreja a salvação das pessoas. Negligenciando a narrativa da invasão e morte dos povos da floresta, de seu extermínio, do fim de sua cultura, substituída pela crença católica e a sociedade tecnológica. Existem pinturas rupestres que demonstram que haviam nas Américas, povos da floresta há 30 mil anos atrás, e pelo modo de vida e organização social poderiam continuar vivendo por mais 30 mil anos, sem ameaçar sua sobrevivência, em contrapartida, nossa civilização tecnológica em apenas 2 mil anos pôs a vida do planeta em risco. Quem será o civilizado da história?

Do alto da catedral podemos ver um céu e uma paisagem deslumbrantes.

Antes de acabar o relato gostaria de retomar a narrativa de Galeano, em seu livro “As veias abertas da América Latina”, para explicitar o que falou Magui em sua entrevista.

A Guerra da Tríplice Aliança (1865) foi a causa do extermínio de milhares de cidadãos paraguaios, Brasil, Argentina e Uruguai fizeram esse genocídio. O Paraguai em 1845 era uma exceção na América Latina, sem pobreza ou desigualdade, com toda população alfabetizada. Contava com uma linha telegráfica, uma ferrovia e boa quantidade de fábricas nacionais. O Estado virtualmente monopolizava o comércio exterior, com grande superávit. O país tinha uma moeda forte e estável, sem nenhuma dívida externa. Noventa e oito por cento do território paraguaio era de propriedade pública, não havia concentração de riqueza ou de terras nas mãos das oligarquias. A Tríplice Aliança, orquestrada pela Inglaterra, acreditava que tomaria Asuncion em três meses, porém o povo se uniu e lutou bravamente por cinco anos. Apenas a sexta parte da população sobreviveu. Hoje o Paraguai não é nem a sombra do que foi um dia.