Eu penei, mas eu cheguei!

Como Flávio se recusou a fazer o relato a partir das 00:00h do dia 24, sobrou pra mim, que a essa altura das horas já estava querendo retirar as bikes do barco ou então enviá-las sozinhas pra Ilha do Cardoso. Mas eu teria de fazer isso sozinha, pois Flávio garrou no banco do barco e disse que não sairia dali de jeito maneira…

Mas enfim chegou o cidadão organizador do evento e pasmem, informou que ainda faltavam 2 carros pra chegar. Com todo mundo querendo jogá-lo rio abaixo, propôs um acordo: sairíamos a 1h, chegassem ou não os faltantes. Acordo feito, já nos descotraíamos com a galera do barco, especialmente um figura que atendia pelo nome de Gil Bahia e olha só: trabalhou por 12 anos como artesão em Mauá, tinha um outro cara também que viveu alguns anos em Paranapiacaba, estávamos em casa…

1h, finalmente era chegada a hora de partir. “Ah mas o último carro já está no portal da cidade!” argumentou o “organizador”, paciência… digamos que eles estão um pouco atrasados… até tiveram tempo de fazer um tchauzinho pra escuna, que lentamente se afastou do trapiche…

A noite estava muito bonita e pedimos pra apagar as luzes trazeiras do barco, onde estávamos, pra melhor poder admirar o céu. Bem o barco saiu e a Banda Cataia se organizou na frente do barco pra começar a cantoria. Gonzagão tomou conta do pedaço: “Eu penei, mas eu cheguei!”, e a minha favorita: “Ah se eu fosse um peixe… corria lá do mar pro Riacho do Navio!” (Riacho do Navio fica nas terras por onde minha mãe nasceu, em Betânia/ Serra Talha – Pernambuco. Já pisei nele, em época que não havia uma gota d’água, está nos planos pedalar por lá). Desse jeito a viagem de 3 horas passou ligeira. Terrível mesmo foi desembarcar as bicicletas no pequeno trapiche da Vila do Marujá. Breu total e eu morrendo de medo do Flávio dar um mergulho lá de cima, foi dureza mesmo, mas o pessoal do barco e o Juninho (sobrinho da Delma) nos ajudaram muito. As 4:30h adentrávamos ao nosso quarto e logo fomos dormir…

DSC_0025

Vila do Marujá

Vila do Marujá

9:30h: acordamos “cedo” e super dispostos. Demos uma voltinha pela vila, fomos ver o mar e fizemos as contas: tempo perfeito para o pedal + maré baixando depois do meio dia + ansiedade = bora pedalar!!! Tomamos um cafezão da manhã com cara de almoço, conversamos com Débora da pousada que nos deu dicas de com quem falar caso ficássemos, por qualquer motivo próximos ao canal: Feliciano do lado de cá e Rubens do lado de lá, onde o local é mais deserto.

Bicicletas prontas para deixar a Vila do Marujá.

Bicicletas prontas para deixar a Vila do Marujá.

As 13h deixamos a pousada e seguimos empurrando as bikes até a praia. O começo da pedalada foi catastrófico! Quase impossível de pedalar, as bikes pererecando na areia e por vezes éramos obrigados a descer pra não cair. Ainda desacostumados com todo o peso das coisas, aos poucos fomos localizando o melhor local para o pedal, que na verdade ainda estava debaixo d’água. Levamos uma hora pra percorrer os primeiros 5 km, confesso que estava com um frio grande na barriga e meio metro de lingua de fora por conta do esforço.

Bora lá pra areia fofa!

Bora lá pra areia fofa!

Nós, o mar, areia, gaivotas, e as mutucas de cabeça...

Nós, o mar, areia, gaivotas, e as mutucas de cabeça…

Flávio em seus últimos metros de São Paulo

Flávio em seus últimos metros de São Paulo

Perto das 15h chegamos ao canal e fomos procurar algum barqueiro para fazer nossa travessia. Haviam alguns turistas com seus barcos por ali, mas os barcos dos moradores estavam todos vazios. Nos encontramos com uma Senhora e perguntamos sobre Feliciano, mas quando indicamos o motivo ela nos apontou um barco que saia do outro lado e acreditava que o rapaz poderia nos atravessar. O barco chegou com algumas mulheres e crianças, essas últimas fazendo a maior algazarra bem na pontinha do barco. O rapaz nos cobrou R$ 30,00 pra nos deixar lá na frente, já na praia do outro lado. Mais um trabalhão pra colocar as bicicletas no barco (ficaria bem melhor se tirássemos os alforges, mas na pressa sempre vai com mala e tudo…),  alguns minutinhos e desembarcávamos no Paraná. Que alegria!!! Dali até Paraty já pedalamos tudo! Pedalamos todos os metros de chão do bonito litoral paulista!

Adentramos ao Parque Nacional do Superagui, pedaço de praia mais preservado que já estivemos. Fizemos um lanche por ali e bora lá que o mar já estava mais amigável, nos deixando uma boa parte de praia com areia dura. Estar em um lugar inóspito como esse nos faz pensar sobre nossa relação com a natureza. Nada mais perigoso para os seres humanos do que querer dominá-la, quanta ingênuidade! Ou seria prepotência? Não estamos separados das demais coisas, nós somos parte de tudo que nos cerca, reconhecer nossa imensa fragilidade não é sinal de fraqueza…

Esse pedal é um grande privilégio, nunca tinha visto tantas gaivotas juntas, são lindas! Quando passávamos perto delas faziam uma grande revoada e ficavam nos circulando. Quem também passou a nos acompanhar foram as mutucas… Algumas pegavam carona em nossas bolsas de guidão enquanto outras circulavam nossas cabeças apetitosas pela refeição fresca. Mas seguimos tod@s de forma razoavelmente harmoniosa… Horrível era só observar a quantidade de lixo trazida pelo mar, e ver pela primeira vez uma grande tartaruga, porém morta na areia, não deve ter sido por velhice…

Sem vento algum e com uma garoinha que vira e mexe aparecia pra refrescar a cabeça, fomos chegando a parte habitada da ilha. O GPS nos indicava uma grande volta pelo banco de areia, sempre bom tê-lo por perto porque parecia termos chegado a lugar algum. Por fim avistamos os barcos e nossa cabeça  é mesmo impressionante. Todo o cansaço apareceu na mesma hora.

DSC_0040

Estacionamos as 17:30h e tivemos de comer mais um teco de nossos lanches antes de procurar hospedagem. O camping ficou pra próxima pra podermos descansar melhor e nos abrigar da chuva prevista pros próximos dias. Com as barrinhas de energia de volta ao amarelo fomos dar conta das demais atividades do dia. Temos pensado bastante como o cicloturismo se parece com vídeo game! Vamos passando uma fase por vez e em cada uma delas há “um mestre”. A diferença é que os personagens somos nós e as fases estão ali, ao alcance das mãos, dos olhos, do nariz, da pele…

Ficamos na pousada “Sobre as Ondas”, após combinarmos uma diária que se encerraria as 18h, a possibilidade de lavar roupa e também cozinhar. Ficamos ali papeando sobre os possíveis 5km de praia que a maré comeu, sobre GPSs e cachorros. Denise, a dona da pousada que nasceu na ilha nos deu toda a acessoria, nos permitindo até que lavássemos a roupa, na máquina. Ficaram bem cheirosas, só nos alertou pra não estendermos as roupas mais lá pro meio do mato porque existem cobras e jacarés por ali… hahaha…

Dia 03: 24/11/12 – sábado.

Estatísticas do pedal:

*Distância: 41,52 Km

*Velocidade Média: 12,2 Km/h

*Máxima: 22,4 Km/h

*Calorias: 357,3

*Tempo de pedal: 3h 22min

*Total: 41,5 Km

Anúncios

Pinga com Catáia

Acordamos as seis horas espontaneamente, ansiosos para pegar o barco. Na saida, encontramos com Ingrid, que desceu conosco ate o trapiche. Nos contou que e coordenadora da escola em Ariri, também falou de sua pedalada de Cananéia até o Ariri, cerca de 70 km. Pensamos que seria uma boa alternativa pedalar até o Ariri, que fica próximo a nossa parada seguinte, Marujá, pois assim economizaríamos a viagem de barco, costumeiramente cara. Chegamos ao trapiche e não encontramos ninguém. Perguntamos a um homem que mexia em um barco e ele nos disse que provavelmente haveria barcos para o Marujá.

DSC_0003

Na pensão, Delma nos deu o telefone de Haroldo, responsável pelos barcos, ligamos e ele nos disse que teria um barco a tarde, tendo um custo de R$ 25.00 por pessoa e R$ 5,00 para cada bike, fechamos com ele.

Tomamos cafe na pensão e descemos para fotografar a cidade. Percebemos como e bonita Cananéia. Isso as vezes nos acontece, de na primeira viajem até uma cidade, não acharmos a mesma bonita e somente na segunda vez sentir a beleza do lugar.

DSC_0007

Fomos ao mercado e compramos algumas coisas que faltavam, também passamos na lotérica para sacar algum dinheiro, mas como o caixa não tinha dinheiro suficiente ficamos de voltar mais tarde.

Na praia perguntamos pelos barcos, vimos 2 bicicletas de outros cicloturistas, os rapazes que estavam perto disseram que eles eram de outro pais, os alforges da bike eram do Greenpeace. Os barqueiros disseram que poderíamos ir com eles, por um preço de R$ 70,00 por pessoa, com uma voadeira que chegaria a Ilha do Cardoso em 40 minutos. Achamos caro, encontramos com Daniel, barqueiro, num balcão que cuida das embarcações. Ele nos disse que não sabia desse barco da tarde, falou que tinham 2 barcos reservados para uma excursão, um sairia a noite e outro amanha cedo, Mas, disse que Haroldo era seu chefe e se ele disse que a tarde teria barco e porque teria.

DSC_0011

Voltamos a pensão, guardamos as coisas nos alforges, montamos as bikes, desocupamos o quarto ao meio-dia, hora que encerrava a diária. Mas, Delma nos disse que podíamos deixar nossas coisas ali em sua casa e poderíamos usar seu banheiro e tomar banho.

Quando, mais tarde ligamos para o Haroldo, ele nos informou que o barco sairia somente as nove da noite e que chegaria lá pela meia noite.

Aproveitamos o resto do dia e atravessamos de balsa até a Ilha Comprida e ficamos em uma pequena praia. O mar estava limpo o sol gostoso, pra completar, ao longe um casal de golfinhos ficava pulando de cá-pra-lá.

Voltamos para a pensão, Delma fez reserva para nós na pensão de sua irmã, Débora, no Marujá. A informação que tivemos sobre a nossa ida de barco é que havia uma excursão de alunos de psicologia que estavam organizando a festa do fim do mundo no Marujá e que iria, inclusive, uma banda chamada Cataia, formada lá por um grupo de músicos. A origem do nome, segundo Delma, tinha a ver com uma folha que era colocada na pinga pra curtir.

DSC_0013Nos ajeitamos e fomos para o trapiche pegar o barco, amarramos nossas bikes em cima da embarcação e ficamos esperando o pessoal da excursão chegar. As pessoas chegavam aos poucos, mas  enquanto alguns chegavam, outros saiam para comprar alguma bebida ou pizza ou então alguém saia para jantar. De repente chegava uma informação que tinha alguém que ligou e iria chegar em meia hora. As horas se passaram e lá pelas onze horas entramos no barco e tentamos dormir nos bancos do barco.

Dia 02: 23/11/12 – sexta-feira.

A distância entre dois pontos.

Dia desses conversávamos com minha mãe sobre a viagem: “vão pra mais algum lugar depois de Curitiba?”, “sim, já compramos a passagem de volta, desde Porto Alegre…”. Ela até se engasgou… Confesso que já ando um pouco cansada só de pensar nesse tanto de chão. Fiquei até incucada com umas aulas de geometria que tive que tratava “da distância entre dois pontos”, procurei algo sobre mas nem cheguei até a fórmula. Já fui boa em matemática mas não me lembro de quase nada. Minha professora dos tempos do ginásio era extremamente exigente, e depois de uns tempos descobri que ela também dava aula de Tai chi chuan. Porque nunca nos ensinou sobre isso??? Talvez umas técnicas de meditação e concentração me fossem muito mais importantes!!! Talvez sofresse menos com as ansiedades da vida, dormisse melhor, conseguisse ter mais reguralidade com treinos e alimentação!

Bom, já descobri que pouco aprendi na escola sobre a vida, pelo menos não no que obrigatoriamente nos deviam ensinar…

Mas voltemos à “distância entre dois pontos”… É estranho pensar que um trajeto que vou demorar 30 dias pra fazer possa ser percorrido em 2h, como o faremos em nosso retorno… É estranho pensar que as coisas não sejam instantâneas como tantas vezes parecem ser. Há uma necessidade generalizada em se eliminar distâncias, entre a fome e o ato de comer, não existe o plantar, o cuidar da terra, o preparar os alimentos e finalmente o comer… é tudo meio instantâneo… o frio e o agasalho, o falar e o ouvir, o ir e vir. Perdemos um pouco da noção sobre o que existe no meio disso tudo…

Finalmente, vamos ao que interessa, nosso primeiro dia de viagem. Pra variar, passei bastante mal na noite que antecedeu a viagem… como se um rolo compressor estivesse a me esmagar, tive disenteria, fiquei enjoada e uma sessão de trimiliques me abateu. Isso tudo junto, às 3 da madrugada. Acho que vou me inscrever num curso de Tai Chi Chuan.

Flávio tinha um seminário pela manhã e iria direto pra Barra Funda enquanto eu iria com meu pai de carro com toda a tralha. Saimos de casa as 12:20 e o embarque seria as 14:30h. Por muito pouco não perdemos o ônibus, um trânsito dos infernos! É tanto stress que eu nem preciso mais passar mal… nada deve ser pior do que dirigir em São Paulo ou embarcar no metrô as 6h na Sé. Preciso descobrir porque eu entro em pânico quando saio de férias…

Já no ônibus uma friaca e mais trânsito devido reformas na rodovia… chegamos em Cananéia as 20:30h, montamos as bicicletas na pracinha que faz as vezes de rodoviária e jantamos por ali mesmo. De lá seguimos para a pousada da Delma, que já nos aguardava. Delma nos ajudou da outra vez que passamos em Cananéia e é boa dica de hospedagem pra quem passa por aqui.

Dia 01: 22/11/12 – quinta-feira.