Caminho à Pucon

Pela manhã ainda colocamos fogo na lareira, a pedalada do dia era curta, não precisávamos sair muito cedo.

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Curtimos um pouco mais do conforto local, pois depois disso íamos passar uns dias acampando…

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Saímos da pequena cidade pedalando por uma estrada tranquila, sem muitas subidas, uma paisagem de bosques, cheias de verde e um clima gostoso.

Estranhávamos no acostamento uns postes com marcações para medir a altura da neve,  e também, as placas indicando que a pista ficava escorregadia quando com gelo. Ficávamos imaginando a neve deixando tudo branco e pensamos em voltar um dia no inverno para ver a paisagem gelada e branca.

Pegamos uma estrada mais movimentada e fomos pelo acostamento de rípio.

Percorremos 37,99 km em 3 horas e chegamos a Pucon, procuramos por um Camping ou hospedagem, perguntamos os preços em alguns hotéis e hostels, mas os preços eram muito caros.

Encontramos o Camping Copacabana, um lugar grande, com boa estrutura, tinha até uma piscina, onde apesar do frio, as crianças se deliciavam.

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Armamos acampamento e saímos para andar pela cidade.

“Ratones”

O relógio despertou às 6h. A chuva continuava do mesmo jeito de quando fomos dormir e os ventos malucos. Foi uma das noites mais frias e, por dormir com a cabeça pros fundos da barraca, ainda tivemos uma goteira devido a condensação. Tínhamos apenas pão e doce de leite para o café da manhã e pedalada. Nada era favorável, apenas o calorzinho proporcionado pelos nossos sacos de dormir mequetréfes e uma cobertinha providencial que deram conta do recado. Sem coragem, continuamos a dormir.

Acordamos já as 10 h, e tudo igual com o tempo, mas era preciso sair da barraca e ver o que fazer. Ficar mais um dia? Não tínhamos comida… Pegar uma carona? Um ônibus havia passado por ali as 8… No Centro de Informações ninguém sabia informar nada da fronteira pra lá, se era asfaltado, se tinha onde comer, nada. Nunca haviam cruzado a fronteira. Não tínhamos relatos de travessias ciclísticas pela região.

No banheiro encontrei uma guria tomando “banho” de torneira. Me relatou que ela e um grupo passaram a noite acampados lá em cima do Lanin. Queriam chegar ao cúme mas foram surpreendidos pelo mau tempo, decidiram acampar e depois descer. E eu achando que nossa noite não tinha sido das melhores…

Então vamos tomar café! Abri o alforge e dei de cara com meio pão! Foi a visão do inferno pra mim! Um rato comeu nosso pão!!! Imaginei que um monstro do tamanho da Luna (nossa cachorra) ainda estava lá dentro, havia destruído nosso alforge, e ainda havia nos transmitido lectospirose. Que tragédia! Só não era o fim da nossa viagem porque ainda tínhamos que sair dali, e pedalando…

Enquanto o Flávio ficou dando bicas no alforge pra ver se o rato saía, fui falar com o dono do camping sei lá pra quê. Enquanto eu lhe contava tamanho fato assustador, ele ria. Foi comigo até nossa barraca e confirmou: “ratones”, se rindo ainda mais. “Mas de que tamanho são os ratones?” (Flávio já tinha cansado de chutar o alforge, não tinha rato nenhum lá, nem buracos também), “Los ratones son de todos los tamanhos, desde grandes aos más chiquititos.”

Limpamos tudo com o álcool que tínhamos, por sorte o pão estava sozinho lá dentro. Ficamos matutando sobre a possibilidade de ratos abrirem zíperes, ou do dono do camping ter comido o pão pra vender outro, ou de quando eu fechei o alforge, ter deixado um pequeno (mas muito pequeno mesmo!!!) espaço entre os zíperes, por onde o rato entrou, mas não sei como saiu depois de comer tanto pão…

Não tínhamos mais o que fazer ali depois do episódio. Eu queria seguir viagem nem que fosse pra acampar na fronteira logo à frente. Compramos outro pão e saímos sem comer nada, arrumando tudo do jeito que deu. Continuava chovendo e ventando, menos insanamente que no dia anterior, mas continuava.

Lanin aparecendo um pouquinho só pra nos dar tchau!

Lanin aparecendo um pouquinho só pra nos dar tchau!

Pedalamos rápido como nunca! A chuva serviu pra abaixar o poeirão da estrada e nem dávamos conta das poças que se formaram, ainda não tínhamos certeza se já havíamos subido tudo o que tínhamos direito.

Chegamos na Aduana Argentina e havia um milhão de pessoas ali, não era possível… estávamos ferrados… nem deu tempo de sentir fome. Perdemos uma hora pra registrar nossa saída. Pegamos umas três filas enormes, cada uma pra uma coisa que não se entende direito, até conseguirmos ser dispensados da última que dizia respeito a documentação dos nossos “veículos”, finalmente uma alma um pouco mais atenciosa entendeu que estávamos de bicicleta e nos liberou sem nos criar problema.

Mais pressa que comemoração na entrada para o Chile.

Mais pressa que comemoração na entrada para o Chile.

Pé na tábua! A foto de entrada no Chile foi meio xoxa porque tínhamos pressa! Mais alguns quilômetros no mesmo rítmo desenfreado e chegamos a Aduana Chilena, pra novamente carimbar nossos passaportes. As bolsas deveriam passar por um detector de metais… Ah não! Pelo amor dos Deuses Ciclístas! Isso nos roubaria mais uma hora! Explicamos em bom portunhol nossas dificuldades, pedimos pra passar as bicicletas inteiras, até que um rapaz simpático se dispôs a revistar nossos alforges manualmente. Ele confiscou nossa abobrinha, cebola, alho, e quando olhou pro nosso pão e doce de leite já avisamos que se não quisesse nos matar de fome, era melhor deixar agente seguir com eles.

Finalmente liberados! E finalmente resolvemos comer. Pão com doce de leite, uma delícia!

Seguimos ainda pela estrada esburacada e começamos a descer tudo o que tínhamos subido no dia anterior. Era uma descida abrupta, daquelas de ter que parar pra descansar as mãos de tanto freiar. Fomos bem devagar pra não tomar um capote.

A entrada no Chile foi uma maravilhosa surpresa em asfalto lisinho e acostamento!

A entrada no Chile foi uma maravilhosa surpresa em asfalto lisinho e acostamento!

Pra nossa imensa, gigantesca e absoluta alegria, o asfalto chegou, lisinho e maravilhoso, e ainda com um bom acostamento que nos permitia apreciar a paisagem com muito mais tranquilidade, deixávamos o deserto e os bosques para trás, para entrar em território mais parecido com uma floresta tropical. Seguíamos um riacho que descia pregado a uns imensos paredões de pedra. Fazia até sol. Havia campings, pequenas casas e até comércios pela estrada. A página dos dias frios e chuvosos estava sendo virada. Obrigad@ Chile!!! Podemos até tirar um tanto de roupas…

Bem vindo Verão Chileno!!!

Bem vindo Verão Chileno!!!

Mais um pouquinho e chegamos em Curaherrue, só tinha um problema… não tínhamos dinheiro chileno… trocamos o pouco que tínhamos de Peso Argentino em Peso Chileno num posto de gasolina, mas ainda tínhamos que escolher entre comer ou dormir. Banco, só em Pucón. Então buscamos uma hospedagem que pudéssemos pagar com cartão, e, já que é pra pagar com cartão, resolvemos logo “se consagrar” e ficamos em um “cabaña”, um pequeno chalé completo: quarto, sala, cozinha, e uma espetacular lareira. Eu poderia ficar ali por uma semana inteira…

Dia 12 Camping Tromem a Curaherrue 07/02/14 (sexta-feira)

Pedal:

Distância: 44,19 Km

Velocidade Média: 11,2 Km/h

Velocidade Máxima: 33,2 Km/h

Tempo de pedal: 3h 56min

Total pedalado: 370,4 Km

A travessia da Cordilheira dos Andes

Era o dia de subir a Cordilheira pelo antigo Passo Tromen, pela fronteira Passo Mamuil Malal. Seriam 67 km de subida constante.

Boa parte do caminho era por uma estrada com uma paisagem de deserto.

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Estava frio, apesar do céu azul e o vento fazia alguns trechos impedaláveis.

Seguíamos pela estrada deserta tentando ficar em cima das bicicletas, mas vinham algumas rajadas de vento que quase nos derrubavam.

Vimos um vulcão a nossa esquerda, acho que era o Vulcão Lanin, estava entre montanhas e com nuvens que pareciam um chapéu chinês. Íamos em sua direção.

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No velocímetro o marcador das horas passava mais rápido que o marcador dos quilômetros.

Chegamos ao Parque Nacional Lanin e a paisagem tornou-se mais verde, em compensação a estrada se tornou pior, sem asfalto, cheia de areia e pedras, os carros passavam e faziam subir uma nuvem de poeira, as rajadas de vento vinham, também, cheias de areia.

Faltavam poucos quilômetros, mas não conseguíamos pedalar, íamos empurrando de 50 em 50 passos, entre uma empurrada e outra, conversávamos sobre nossas alternativas: jogar nossas bicicletas no mato?, podíamos pedir carona, mas só se fosse um carro grande ou picape, podíamos deixar as bicicletas e pedir carona, mas o que levaríamos, os alforges eram muitos e pesados.

Seguímos, pensando que nossa história ia se resumir a ser achados mortos na subida da cordilheira, feito os alpinistas do Everest…

Mas no momento em achávamos que íamos morrer… chegamos!

No meio do nada. Havia um posto turístico e um camping selvagem, em que o único banheiro era do posto de turismo. Não havia nada para se comprar lá, apenas um pão caseiro que a mulher do camping vendia. Estava muito frio. No camping algumas barracas no meio da chuvinha que caía incessante. Conversamos com uma mulher que cuidava do camping, era possível tomar banho, eles tinham um lugar que podiam queimar algumas árvores para esquentar a água, mas ela não recomendou, “só tomam banho em último caso”, durante o dia, porque durante a noite a água ficava fria e difícil de esquentar.

Armamos a barraca na chuva, depois preparamos o jantar na mesma chuva, usando uma água congelante que saía da torneira. Ana tentou filmar o Lanin, mas ele estava todo coberto. Havia uma série de avisos nos prevenindo que o local estava cheio de “ratones”, por isso guardamos o pão que compramos da cuidadora do camping nos alforges e não deixamos nenhuma comida na barraca. Estava abaixo de zero, dormimos sem banho, rezando pelo nosso futuro.