17º dia de viagem

De Púcon à Licanray

Saímos do Pucón depois de 4 dias, acabamos atrasando um pouco a viagem, mas valeu pela diversidade de experiências, deixamos a bela cidade pra trás e seguimos em frente, era bom estar pedalando de novo, em nosso planejamento o objetivo era ir de Pucon a Villarica e de lá até Panguipuli, mas como já havíamos subido o Vulcão resolvemos pular a cidade de Villarica e ir até Licanray, mas no caminho resolvemos tentar um atalho fora da estrada principal, para sair do meio dos carros e acabamos pegando umas estradinhas de rípio.

Do rípio já falamos, parece ser assim, eles tem muita pedra no Chile, então nas estradas de terra eles passam com um caminhão e despejam pedras, não sei se para os carros é bom, talvez no inverno, com tudo cheio neve, mas para nós de bike é um sofrimento. Temos que ir devagar, prestando atenção em cada pedra, desviando, por várias vezes derrapamos e quase caímos.

Fomos tentando achar o caminho e acabamos fazendo algumas idas e vindas, voltamos pra pista chegando em Licanray cansadxs e estressadxs, acabamos pedalando 61 km, numa velocidade média de 9,5 km/h, demorando 6h28.

Fomos em direção a praia, encontramos um hotel que tinha um javali empalhado na entrada, entramos pensando em comer, mas o cozinheiro só chegava de noite, perguntamos se podíamos ficar por ali na internet até o cozinheiro chegar, achamos o preço caro para ficar hospedados, mas aproveitamos o Wifi.

Praia de Lican Ray

Praia de Licanray

Uma praia bonita, demos uma volta vendo as pessoas curtindo o lago.

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As informações que tínhamos era de um Camping na entrada da cidade, mas conversando com um atendente, ele nos disse que havia um Camping bem próximo dali, isso nos animou, o cozinheiro chegou e acabamos finalmente jantando.

Anoitecia

Anoitecia

Pedalamos procurando o local, chegamos na praia grande e não achamos, perguntamos para uma moçadinha que passava, um dos meninos correu até a praia atrás de um homem que passava correndo, ele veio e nos orientou a voltar que já havíamos passado por ele. Voltamos e achamos o local, um Camping de uma comunidade religiosa, a moça que nos atendeu disse que era só para os fieis da comunidade, mas que abria uma exceção para nós (infiéis), falou que a água quente já estava desligada, mas ligava para nós (infiéis), mas nos deu um preço tão alto que nos arrependemos de não ficar no hotel. Foi o Camping mais caro da viagem, ficamos logo na entrada do Camping, na primeira área, tomamos banho quente e fomos dormir na maior ventania.

No topo do Vulcão Villarica

A subida ao Vulcão Villarica foi motivo de muitas conversas, medos e indagações antes de nossa viagem… precisa mesmo disso gente??? Sempre achei muito estranho pessoas colocarem a vida em risco por conta destas aventuras… os adeptos devem rir deste tipo de ponderação uma vez que essa é uma subida considerada fácil, e realmente me parece que sim, é fácil, não requer nenhum treinamento ou experiência prévia, apenas alguns equipamentos específicos e dicas de como utilizá-los. MAASSS… já morreu gente escalando esse vulcão… ok, já morreu gente atropelada no centro de São Paulo e nem por isso eu deixo de trabalhar por lá. Então tá! Vamos logo escalar esse vulcão!

A ida às termas foi uma benção pra termos uma noite maravilhosa e dormir feito uns anjinhos. Às 5 da manhã o despertador nos encontrou descansados e dispostos. Nos arrumamos rapidamente (coisa rara) e fomos ainda de noite caminhando pra agência. Quando chegamos lá, já tinha um monte de gente se vestindo, ajeitando as coisas nas mochilas, ao que pudemos apenas conversar um pouquinho com um casal de brasileiros que também comporia o grupo e já embarcar na Van que nos conduziria até a base do vulcão. O tempo estava bastante nublado o que poderia ser um fator impeditivo pra subida, mas já tinham avisado que na manhã anterior também estava assim, e que com o passar das horas as nuvens se dissiparam e foi possível realizar a ascensão.

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Já na base do vulcão, as nuvens ficaram lá embaixo.

Há a opção de seguir caminhando todo o trajeto ou fazer uma parte de teleférico (que tem que pagar separadamente, não está incluso no pacote), o que é a opção da grande maioria. Só a caminhadinha até lá já dava o tom da brincadeira… ia ser puxado! Se adequar à mochila parecia ter que carregar um imenso casco de tartaruga, e as botas, patas de elefante.

P R E P A R A!

P R E P A R A!

Dois a dois se posicionavam na plataforminha do teleférico, tinha que ficar esperto, não havia tempo de parada, uma mão tinha que segurar a mochila posicionada na frente do corpo e a outra ficar livre pra se agarrar à condução. Nossa vez! Respira… respira… e vlupt! Fomos catapultados para cima! Nem dá muito tempo de errar e na sequência você já está balançando pra frente e pra trás com os pés abandonados na direção do penhasco… o vento gelado fazia um afago no rosto e cantamos baixinho a música que nos acordou, instintivamente, talvez pra mandar o medo pra longe…

“Oni saurê, Aul axé, Oni saurê Oberioman Onisa aurê, Aul axé Baba, Onisa aurê Oberioman Oni saurê”

Que a tradução que localizei seria essa aqui:

Rei/Senhor do Céu De Energia, Força e Suprema Verdade Rei/Senhor Que continua Vivo Espiritualmente Rei/Senhor dos Céus Pai do Plano dos Orixás (Céu/Aruanda) Sua Verdade é Suprema

A música é “Canto pra Oxalá”, que conhecemos no belíssimo trabalho de Rita Ribeiro, o “Tecnomacumba”, que além de minimizar meus tantos preconceitos com as religiões de matizes africanas, também me ajudou a ter outra referência com a natureza, que creio que a religião cristã/ católica na qual fui ensinada, deixa a desejar. Mas acho que finalmente, eu começava a aprender o significado que na tradição cristã quer ter o chamado “temor a Deus”.

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Destino: aquela fumacinha láááááá em cima iluminada pelo sol.

Saindo do teleférico o grupão da nossa agência foi reunido e os guias foram nos separando conforme as habilidades de cada um. Estávamos nuns três grupos, fomos selecionados para o último… os guias já avisaram que, chegando na neve, eles diriam quem poderia ou não continuar, e não adiantava retrucar, pois a partir dali, se algo acontecesse eles não poderiam nos ajudar muito.

Já to te esperando Aninha...

Já to te esperando Aninha…

A gente já chegou?

A gente já chegou?

Colei no nosso guia e tentei acompanhá-lo o mais de perto possível, ele ia tão devagar! E eu me concentrando só em respirar mesmo, nada de olhar pra baixo, tão pouco pra paisagem. Outros grupos pareciam bem mais descontraídos, fazendo piada e não se importando muito, o nosso estava mais quieto, o guia também, só de vez em quando anunciava “Chicos, estamos llegando, só mais um pouco!”, e geralmente quando ele anunciava a próxima parada eu já tava pedindo arrego… esse início parecia uma corrida entre as diversas agências porque são tantas que até parar pra comer na montanha é disputado. Digamos que não há bancos e mesinhas pra fazer o lanche, apenas um lugar menos íngreme pra apoiar a mochila sem que essa saia rolando, ou quem sabe você.

A fila!

A fila!

Pausa pro lanche.

Pausa pro lanche.

Chegando na fronteira gelada.

Chegando na fronteira gelada.

Chegando na neve era hora de recebermos a notícia se poderíamos ou não seguir em frente… e foi triste ver a dispensa do outro casal de brasileiros. A guria estava mesmo muito abatida, e felizmente seu namorado decidiu por acompanhá-la. Eu me sentiria muito decepcionada! Não só pelo dinheiro, mas pela impossibilidade de concluir uma ação que decidi fazer… Até ali, parecia mesmo que a profecia do vendedor da agência poderia se confirmar, somente 50% dxs brasileirxs que compram o pacote chegam ao cume, bastava para isso que a gente chegasse.

Outros pontiagudos no horizonte.

Outros pontiagudos no horizonte.

Fila pra baixo.

Fila pra baixo.

Fila pra cima.

Fila pra cima.

Na parte da neve fomos orientadxs a colocar as roupas de frio, e realmente estava muito frio! Com aquele tanto de roupa e especial umas luvas que foram desenhadas pras mãos da Turma da Mônica e não pras nossas, a gente tava um pouco desajeitado… A euforia inicial dos grupos diminuiu e todxs estavam mais concentradxs na trilha de gelo que tínhamos que seguir. O guia já estava um pouco mais conversador e nos contou algumas coisas sobre o seu trabalho diário de escalar um vulcão. Sobre a liberdade e o prazer que sentia em estar na montanha todos os dias, e não preso em uma sala. Uma das coisas mais importantes falou, que em geral segundo ele os turistas não entendiam, é que o que eles vendem não é o cume do vulcão, não há como vender o que cada um tem que conseguir por si. O que eles vendem, na realidade, é a experiência que eles têm com a montanha, achei bonito isso… Ele conseguiu dar um sentido importante pro seu trabalho.

Formigas pra baixo.

Formigas pra baixo.

Formigas pra cima.

Formigas pra cima.

A gente já chegou??? II

A gente já chegou??? II

Chegamos no almoço.

Chegamos no almoço.

Deitada pra não rolar...

Deitada pra não rolar…

Restaurante com vista panorâmica.

Restaurante com vista panorâmica.

Vamos conseguir! Nada de cochilinho depois do almoço...

Vamos conseguir! Nada de cochilinho depois do almoço…

Do gelo pra frente só precisamos ter paciência. Olhar pra cima parecia fazer da tafera algo impossível, por isso era melhor se concentrar apenas no próximo paço, o que já demandava bastante energia. De repente a garganta começou a coçar e um cheiro de enxofre invadiu nossas narinas, estávamos próximos o bastante do bafo quente do rapaz cuspidor de fogo e nossos lencinhos ajudaram bastante a suportar seu mau hálito. Estava ventando, o que era bom pra dissipar a fumaça tóxica e quando finalmente atingimos o cume, pudemos nos posicionar contra o vento e aproveitar melhor a estadia. Um grupo da agência que chegou antes não pode aproveitar como nós por conta da fumaça. No final, nossa lentidão acabou ajudando.

C-H-E-G-A-M-O-S-!-!-!

C-H-E-G-A-M-O-S-!-!-!

Tocando "Brasileirinho"

Tocando “Brasileirinho”

De rostinho colado com "La Fumacinha"!

De rostinho colado com “La Fumacinha”!

Que bafo né?

Que bafo né?

Com nosso guia! Obrigada pelo seu trabalho moço!

Com nosso guia! Obrigada pelo seu trabalho moço!

No topo a galera estava eufórica novamente, faltava pular no buraco (literalmente) pra tirar foto de rostinho colado com a lava… o guia nos relatou episódio em que quase foi derrubado pra dentro do vulcão pelo próprio grupo que guiava, ocasião em que a agência em que trabalha determinou que não mais iriam ao famigerado local, onde observávamos a presença de muitas pessoas.

O "morrinho" de onde nosso guia quase desabou. Os guias dessa agência não vão mais a este local.

O “morrinho” de onde nosso guia quase desabou. Os guias dessa agência não vão mais a este local.

Na boca da cratera, além da fumaça, há muita neve... (???)

Na boca da cratera, além da fumaça, há muita neve… (???)

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Melhor não andar por essa parte…

Ah! Antes que me esqueça, não dá pra ver a "lava", pra nossa sorte... rsrs

Ah! Antes que me esqueça, não dá pra ver a “lava”, pra nossa sorte… rsrs

Próximo destino?

Próximo destino?

Tiramos também nossas fotos pra registrar o momento histórico e já era hora de descer. Novamente éramos os últimos da fila, nós e mais 3 espanhóis acompanhados por 2 guias agora bastante apressados pra descida, pois alguém teria se machucado e a Van da agência tinha que partir. Acho que era só desculpa pra nos apressar mesmo, o que não adiantou muito, mas também não permitiu que registrássemos o momento mais divertido do passeio, talvez o único de pleno prazer, que gostaria muito de repetir, não fosse o fato de ter que subir um vulcão para isso… rsrs

Imagine um tobogã gigante. Era o que tínhamos pra brincadeira agora. A descida de tantas pessoas vai formando verdadeiros túneis no gelo e chega a dar a sensação que você vai mesmo é decolar tamanho o embalo que pega.

Primeiro a explicação de como proceder, onde retiramos da mochila um “plástico” onde sentamos e somos ajudados a escorregar (ah que saudades do papelão e do famoso “morrinho” de terra da minha rua da infância). A picareta que nos ajudou na subida agora serve de freio de mão. Nas primeiras vezes que utilizei tava até usando o cotovelo junto, mas depois percebi que no fim de cada “túnel” se acumulava um gelo fofo que, se não nos levava embora como numa avalanche, ajudava a parar.

Como tudo que é bom também termina, descer a parte de gelo foi mais rápido que subir… (são 4 horas subindo e 2 horas descendo). Chegamos na parte sem gelo e nas palavras do guia, agora tínhamos que fingir estar na lua e dar passos largos diretamente pra baixo, nessa última brincadeira Flávio ganhou uma unha preta no dedão, que depois da viagem veio a cair. Essa parte já foi cansativa novamente e o sol já ia alto, aumentando o calor e o cansaço.

Na chegada à base a Van já tinha ido embora e um carro menor nos conduziu de volta à agência onde uma rodada de cerveja gelada nos aguardava. Ficamos conversando com os espanhóis, nossos derradeiros companheiros que, mesmo acostumados a caminhar, foram surpreendidos pela grande dificuldade da subida. Imagina a gente que nunca tinha colocado um mochilão nas costas…

O fim da tarde foi de alívio e espanto… Uma estranha sensação que demorou pra irmos digerindo. Naquele momento queríamos mesmo deixar Pucón e seguir viagem com nossas humildes bicicletinhas…

Dia 16 – Subindo o Vulcão Villarica – 11/02/14 (Terça-feira)