Considerações Finais

Passados mais de dois anos de nossa viagem pelo norte da Patagônia, entre Argentina e Chile, pensamos que não conseguiríamos chegar ao final dos relatos. Como sempre afirmamos, os relatos de viagens, para além de uma recordação pessoal, também ajudam, pensamos, outras pessoas a organizarem e se encorajarem a viajar de bicicleta. É assim que muitas iniciamos nossas viagens, vendo fotos e lendo relatos de outras pessoas.

Mas não poderíamos deixar essa viagem de lado, foi sem dúvida, a viagem de paisagens mais incríveis! Não podemos dizer que foi nossa melhor viagem, pois todas tem seu gostinho especial, mas essa vence a categoria de belezas cênicas… rsrs

Passado tanto tempo, é fato que não nos lembramos de tantos detalhes, mas sem dúvida a dica mais importante é o fato de termos conseguido cruzar esses caminhos, e muitos que tiverem o mesmo interesse, também poderão fazê-lo. E isso é o mais bacana do cicloturismo, ser acessível física e financeiramente para um maior número de pessoas, que outras viagens mais convencionais.

Na fronteira

Obs: o último dia de pedal foi do centro de Bariloche até o aeroporto, um pedal de 15 km sem muitas novidades, e os trâmites de embarque já conhecidos.

Alguns números dessa viagem:

Dias de viagem: 29

Total de quilômetros pedalados: 920,8 km

Gastos: sem contar as passagens, estávamos preparados pra gastar R$ 200,00 por dia, o que seria possível, tendo dias de hospedagem em hotéis e também acampando. Comendo em restaurante e também cozinhando a própria comida. Ficando em locais bem simples e comendo pão com mortadela na praça e passeando de barco e fazendo massagem pra relaxar. Passamos só um pouquinho do planejado, e gastamos um total de R$ 6.706, 75. Dá pra gastar menos, e viajar mais, quem sabe um dia…

Voltando a sonhar.

Quando viajamos, ficamos perfeitamente conectados com o presente. Embora a cabeça passeie faceira entre visitas ao passado e vislumbres do futuro, o cálculo de força pra vencer uma subida, a procura de uma sombra de árvore agradável para o lanche e a garantia que tem água suficiente até a próxima parada preenchem o dia de atividades.

Nesta viagem, como em todas, fizemos muitos planos. “Casar ou comprar uma bicicleta?”

Nossa última estadia foi um desses lugares que nos inspiram a sonhar com outros trabalhos possíveis para nós. O cara construiu uma hospedagem no estilo “hostel”, com quartos super ajeitados de até 4 pessoas, banheiros coletivos, super ajeitados, e um espaço de convivência que, na sua elegância, só podia tocar música brasileira da melhor qualidade. Além da hospedagem, ele aluga bicicletas e planeja o melhor roteiro para os que querem conhecer a região com as magrelas. Muito, muito legal.

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Deixamos o Hostel Refúgio Cordillera sem pressa alguma, pra percorrermos mais 20 km que nos deixariam no centro da cidade. Ainda bem que não tivemos que percorrer este trecho à noite, e ficamos tão bem hospedados, pois não havia acostamento e os motoristas se comportam mal, não respeitando nossa existência.

Chegamos ao centro e ficamos num hotel com vista pro lago, pra comemorar nossa última estadia nesta grande viagem.

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Obrigada por se comportar tão bem!

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Carregada de flores!

Enquanto apreciávamos nossos meios de transporte, já na calçada do hotel, pudemos observar perplexos um casal de ciclistas que iam no sentido contrário. Uma mulher à frente não pedalava sozinha, estava acompanha em sua tandem por uma menina de uns 10 anos de idade. Atrás vinha um homem puxando um pequeno trailer com mais uma criança dentro…

Ok. Já podemos casar e ter uma prole. Só não pedala quem não quer…

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Últimos recuerdos de Bariloche!

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Partindo e já querendo voltar…

Dia 28 – 23/02/14 – Até o centro de Bariloche

Estatísticas do Pedal:

Distância: 20,18 km

Velocidade Média: 13,2 km/h

Velocidade Máxima: 32,4 km/h

Tempo: 1h 31 min

Total: 906,5 km

Retorno à Bariloche

Acordamos cedo novamente, estava bem frio, não podíamos perder o tempo da viagem, pois tínhamos o dia cronometrado.

Um amanhecer de cartão postal

Um amanhecer de cartão postal

O dia estava lindo, fico imaginando se as pessoas desse vilarejo acordam estressados algum dia?

Dar de cara com essa paisagem é um privilégio pra nós, imagina viver nesse lugar…

Olha que lugar

Olha que lugar

Quando chegamos ali fora vimos que nossa cã guardiã ainda estava lá, a nossa espera.

Fani correu conosco pela estrada, as vezes ia mais na frente, próxima a Ana, outras vezes ia mais perto de mim, mas com uma resistência enorme nos acompanhou de perto, mesmo quando pegávamos mais velocidade.

Uma boa cachoeira para refrescar

Uma boa cachoeira para refrescar

Quando paramos em uma cachoeira Fani mergulhou na água gelada para refrescar, mas mesmo na estrada, entrava em todas as poças que encontrava.

O mergulho de Fani

O mergulho de Fani

As vezes Fani entrava por uma cerca de arame e corria atrás das vacas, deixando todas apavorados, inclusive nós.

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Mas quando chegamos nos Guarda Parques tivemos uma surpresa desagradável, alguém havia nos falado que ela pertencia aos Carabineiros e assim que chegamos ela foi presa em flagrante, amarrada e levada pelos guardas que disseram que ela havia fugido a alguns dias atrás, pobre Fani, espero que em breve ela se solte novamente e volte para estrada, assim como nós também fazemos, de vez em quando.

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Chegamos na entrada de acesso ao Tronador, famoso vulcão na divisa entre o Chile e a Argentina – tem até um desenho dos anos 50 que fala sobre ele. Dizem que seu nome tem origem no barulho que faz durante o degelo, parecendo um trovão.

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Seguimos em ritmo acelerado, leves, sem a bagagem, que estava sendo levada pelo companhia de viagem.

Demos início a subida da Cordilheira, mais de mil metros de acensão, num trecho impedalável, uma ruazinha de terra, estreita e cheia de pedras, mesmo com a bike vazia empurramos com dificuldade por todo o caminho. Abaixo deixamos a altimetria, para ter uma ideia do paredão que tínhamos que subir.

altimetria

Morremos de inveja de um casal que cruzamos na estrada descendo de bike, fomos passados por alguns carros, ônibus e caminhões, até que por fim chegamos na divisa da Argentina.

Fronteira Chile e Argentina

Fronteira Chile e Argentina

Descemos o morro e mais um pouco chegamos na Duana, para apresentar nosso passaporte e esperar o próximo barco.

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Ficamos ali a toa, esperando começar a rotina de trabalho dos funcionários.

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Deitamos na grama, andamos na beira do lago e tiramos algumas fotos daquela água azul esverdeada de degelo.

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Cada lago tem uma cor diferente…

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Um mais bonito que o outro.

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Estávamos em Puerto Frias indo pra Porto Alegre chilena.

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Apresentamos nossa documentação, o ônibus chegou com os passageiros que dormiram no hotel e depois de toda burocracia esperamos o segundo barco chegar.

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Era um barco menor que o outro, que pegamos ontem, mas igualmente luxuoso.

O barco foi deslizando pela água esverdeada…

De volta ao barco

De volta ao barco

A paisagem sempre nos oferecendo uma nova pintura.

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Essa passagem era mais curta e tínhamos que nos preparar para sair correndo, pois ao aportar, havia um trecho de terra, de 3 km que os passageiros iriam fazer de ônibus e nós de bike, para pegar o terceiro barco da travessia.

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Mal o barco parou pegamos as bikes e saímos em disparada, era um trajeto pequeno, mas com um pouco de subida, no meio do percurso o ônibus com os passageiros nos passou, mas deu tempo, chegamos com as pessoas ainda embarcando. Ainda ofegantes iniciamos a travessia.DSC_1315

Subimos ao convés e o pessoal ficou fazendo aquela brincadeira de dar bolacha para as gaivotas que davam rasante a favor do vento, me lembrando Fernão Capelo Gaivota e pegando a bolacha na mão das pessoas.

Comemos um lanche e conversamos um pouco com um casal que insistiu que ficássemos no hotel em que estavam, segundo eles, a poucos quilômetros do porto de chegada.

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Chegamos no porto já anoitecendo, juntamos nossas tralhas e pegamos a estrada movimentada já de noite.

O hotel que o casal falou era próximo para quem vai de carro, mas para nós era bem longe, além disso, saía da estrada e nos fazia voltar um trecho.

Já havíamos ligado para alguns hotéis e estava tudo cheio, no caminho perguntamos em alguns lugares, mas não tinha vaga.

Num lampejo daqueles, Ana resolveu parar de repente e perguntar para um casal que passava no meio da escuridão, se conheciam algum lugar pra ficar. Imagina que absurdo, pensei eu, como alguém, nesse meio do nada vai conhecer algum lugar?

Mas, o casal indicou um lugar ali perto, numa travessa da estrada, uma grande casa toda de madeira, um lugar de sonho…

Ficamos num quarto coletivo, mas não tinha outros hospedes nele, as camas e paredes eram de troncos, tomamos banho, conversamos um pouco na sala e depois fomos dormir.

Distância: 36,20 km

Velocidade máxima: 31,8 km/h

Tempo: 5h22m

Total pedalado: 886,3 km

Em grande estilo.

Acordamos cedo pra deixar tudo organizado pro nosso embarque. A parte chique da viagem ia começar e foi crucial para escolhermos o sentido do nosso roteiro, no caso, deixando pra percorrer esta parte por último, quando estaríamos mais preparados fisicamente e em dois dias de viagem, pra ir bem devagar, e sempre.

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Nos arrumamos rapidamente pra não nos atrasarmos pro nosso próximo transporte. O dia amanheceu frio e ensolarado mais uma vez, colorindo tudo ao redor. Já a postos, percebemos pelas vestimentas e acessórios que não éramos @s únic@s ciclistas da embarcação.

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Tentando conversar a linguagem universal das bicicletas descobrimos que as francesas haviam percorrido a Ilha de Chiloé e também já estavam encerrando a viagem. Ilha de Chiloé ficou registrada na memória pra um possível retorno a esta magnífica região.

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Já no barco ficamos observando o camping onde passamos a noite se afastar… Já pensou a energia de dormir sob as bençãos do Vulcão Osorno, do alto de seus 2652 metros???

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Vagarosamente fomos nos despedindo de umas belezuras, pra se aproximar de outras.

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E olha quem tava no pilot do barco???

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Como grandes referências, vamos observando picos congelados em várias direções. Abaixo já se vê o Vulcão Pontiagudo, com 2.493 metros de altitude.

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Dá pra imaginar como tava bom esse livro?

 

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E aqui um tequinho do Cerro Tronador, com 3.491 metros, do qual seguiremos nos aproximando no dia seguinte.

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Após 1h40 de navegação pelo Lago de Todos os Santos chegamos ao pequeno vilarejo de Peulla, um pequeno microcosmo de como funciona o capitalismo, com algumas vantagens pra seus moradores no que se refere a sossego e belezas naturais.

Todas as pessoas que vivem em Peulla são funcionárias da empresa Cruce Andina, bem como, todos os imóveis e comércios do local também são de propriedade desta empresa. Já na chegada, nos dirigimos ao luxuosíssimo hotel local, única opção de hospedagem. Não me recordo exatamente o valor da diária, mas era algo em torno de R$ 500,00, o que pra gente não era nem um pouco convidativo. Almoçamos no hotel, num restaurante também lindíssimo e caro, mas fomos procurar outra opção pra passar a noite.

Como já tínhamos lido outros relatos de viagens, sabíamos que os cicloturistas acampavam na sede do parque local (até porque, sendo o único local público, não tem como te expulsarem dali!), ou tentavam acolhida na casa de um dos moradores, o que teoricamente é vedado pela empresa…

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Preparando a bóia da noite.

Andamos pelo vilarejo observando a rotina e conversando aqui e ali, localizamos uma venda, depois fomos a casa de um *senhor fictício que alugaria quartos, mas ele negou a informação. Descobrimos uma senhora que fazia pães, e após comprarmos um pro nosso café da manhã, perguntamos se não haveria algum lugar pra passarmos a noite, pois o hotel era muito caro… bingo! A senhora, de nome e sorriso lindos iria nos acolher nesta noite. Combinamos que chegaríamos às 20h e ainda fomos convidados pra participar de uma churrascada que haveria à noite…

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Depois de jantarmos, aguardamos a hora de nossa entrada na estadia. Desde que chegamos à Peulla, um fato curioso aconteceu. Uma cachorra toda saltitante, conhecida por todos no local, de nome “Fani” ficou na nossa cola. Era a “perra” dos “carabineros”, nos diziam, e tinha chegado até ali acompanhando outros cicloturistas que vieram no caminho oposto ao nosso. Não entendíamos direito a história naquele momento…

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Quando chegou a hora, fomos até a residência que nos acolheria, ocuparíamos o quarto principal da casa e combinamos R$ 50,00 como pagamento. De 50 pra 500 e a concorrência entre moradores e hotel nos pareceu óbvia. No capitalismo é assim, é livre a concorrência desde que apenas um empresário que vive bem longe dali seja o único dono dos dividendos…

Tomamos banhos bemmmm quentinhos e fomos nos sentar à mesa com alguns alegres moradores de Peulla. Soubemos um pouco de suas vidas, seus sonhos de viajar pelo Chile e de vir ao Brasil só pra ver a Copa mesmo… Já havíamos jantado, então aceitamos um pouco do vinho pra nos integrarmos um pouco mais. Foi uma rica experiência.

De Petrohue a Peulla – 21/02/14 (sexta)