Sobre Lagos e Montanhas: pedal pela Patagônia entre Argentina e Chile

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Considerações Finais

Passados mais de dois anos de nossa viagem pelo norte da Patagônia, entre Argentina e Chile, pensamos que não conseguiríamos chegar ao final dos relatos. Como sempre afirmamos, os relatos de viagens, para além de uma recordação pessoal, também ajudam, pensamos, outras pessoas a organizarem e se encorajarem a viajar de bicicleta. É assim que muitas iniciamos nossas viagens, vendo fotos e lendo relatos de outras pessoas.

Mas não poderíamos deixar essa viagem de lado, foi sem dúvida, a viagem de paisagens mais incríveis! Não podemos dizer que foi nossa melhor viagem, pois todas tem seu gostinho especial, mas essa vence a categoria de belezas cênicas… rsrs

Passado tanto tempo, é fato que não nos lembramos de tantos detalhes, mas sem dúvida a dica mais importante é o fato de termos conseguido cruzar esses caminhos, e muitos que tiverem o mesmo interesse, também poderão fazê-lo. E isso é o mais bacana do cicloturismo, ser acessível física e financeiramente para um maior número de pessoas, que outras viagens mais convencionais.

Na fronteira

Obs: o último dia de pedal foi do centro de Bariloche até o aeroporto, um pedal de 15 km sem muitas novidades, e os trâmites de embarque já conhecidos.

Alguns números dessa viagem:

Dias de viagem: 29

Total de quilômetros pedalados: 920,8 km

Gastos: sem contar as passagens, estávamos preparados pra gastar R$ 200,00 por dia, o que seria possível, tendo dias de hospedagem em hotéis e também acampando. Comendo em restaurante e também cozinhando a própria comida. Ficando em locais bem simples e comendo pão com mortadela na praça e passeando de barco e fazendo massagem pra relaxar. Passamos só um pouquinho do planejado, e gastamos um total de R$ 6.706, 75. Dá pra gastar menos, e viajar mais, quem sabe um dia…

Voltando a sonhar.

Quando viajamos, ficamos perfeitamente conectados com o presente. Embora a cabeça passeie faceira entre visitas ao passado e vislumbres do futuro, o cálculo de força pra vencer uma subida, a procura de uma sombra de árvore agradável para o lanche e a garantia que tem água suficiente até a próxima parada preenchem o dia de atividades.

Nesta viagem, como em todas, fizemos muitos planos. “Casar ou comprar uma bicicleta?”

Nossa última estadia foi um desses lugares que nos inspiram a sonhar com outros trabalhos possíveis para nós. O cara construiu uma hospedagem no estilo “hostel”, com quartos super ajeitados de até 4 pessoas, banheiros coletivos, super ajeitados, e um espaço de convivência que, na sua elegância, só podia tocar música brasileira da melhor qualidade. Além da hospedagem, ele aluga bicicletas e planeja o melhor roteiro para os que querem conhecer a região com as magrelas. Muito, muito legal.

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Deixamos o Hostel Refúgio Cordillera sem pressa alguma, pra percorrermos mais 20 km que nos deixariam no centro da cidade. Ainda bem que não tivemos que percorrer este trecho à noite, e ficamos tão bem hospedados, pois não havia acostamento e os motoristas se comportam mal, não respeitando nossa existência.

Chegamos ao centro e ficamos num hotel com vista pro lago, pra comemorar nossa última estadia nesta grande viagem.

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Obrigada por se comportar tão bem!

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Carregada de flores!

Enquanto apreciávamos nossos meios de transporte, já na calçada do hotel, pudemos observar perplexos um casal de ciclistas que iam no sentido contrário. Uma mulher à frente não pedalava sozinha, estava acompanha em sua tandem por uma menina de uns 10 anos de idade. Atrás vinha um homem puxando um pequeno trailer com mais uma criança dentro…

Ok. Já podemos casar e ter uma prole. Só não pedala quem não quer…

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Últimos recuerdos de Bariloche!

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Partindo e já querendo voltar…

Dia 28 – 23/02/14 – Até o centro de Bariloche

Estatísticas do Pedal:

Distância: 20,18 km

Velocidade Média: 13,2 km/h

Velocidade Máxima: 32,4 km/h

Tempo: 1h 31 min

Total: 906,5 km

Em grande estilo.

Acordamos cedo pra deixar tudo organizado pro nosso embarque. A parte chique da viagem ia começar e foi crucial para escolhermos o sentido do nosso roteiro, no caso, deixando pra percorrer esta parte por último, quando estaríamos mais preparados fisicamente e em dois dias de viagem, pra ir bem devagar, e sempre.

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Nos arrumamos rapidamente pra não nos atrasarmos pro nosso próximo transporte. O dia amanheceu frio e ensolarado mais uma vez, colorindo tudo ao redor. Já a postos, percebemos pelas vestimentas e acessórios que não éramos @s únic@s ciclistas da embarcação.

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Tentando conversar a linguagem universal das bicicletas descobrimos que as francesas haviam percorrido a Ilha de Chiloé e também já estavam encerrando a viagem. Ilha de Chiloé ficou registrada na memória pra um possível retorno a esta magnífica região.

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Já no barco ficamos observando o camping onde passamos a noite se afastar… Já pensou a energia de dormir sob as bençãos do Vulcão Osorno, do alto de seus 2652 metros???

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Vagarosamente fomos nos despedindo de umas belezuras, pra se aproximar de outras.

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E olha quem tava no pilot do barco???

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Como grandes referências, vamos observando picos congelados em várias direções. Abaixo já se vê o Vulcão Pontiagudo, com 2.493 metros de altitude.

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Dá pra imaginar como tava bom esse livro?

 

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E aqui um tequinho do Cerro Tronador, com 3.491 metros, do qual seguiremos nos aproximando no dia seguinte.

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Após 1h40 de navegação pelo Lago de Todos os Santos chegamos ao pequeno vilarejo de Peulla, um pequeno microcosmo de como funciona o capitalismo, com algumas vantagens pra seus moradores no que se refere a sossego e belezas naturais.

Todas as pessoas que vivem em Peulla são funcionárias da empresa Cruce Andina, bem como, todos os imóveis e comércios do local também são de propriedade desta empresa. Já na chegada, nos dirigimos ao luxuosíssimo hotel local, única opção de hospedagem. Não me recordo exatamente o valor da diária, mas era algo em torno de R$ 500,00, o que pra gente não era nem um pouco convidativo. Almoçamos no hotel, num restaurante também lindíssimo e caro, mas fomos procurar outra opção pra passar a noite.

Como já tínhamos lido outros relatos de viagens, sabíamos que os cicloturistas acampavam na sede do parque local (até porque, sendo o único local público, não tem como te expulsarem dali!), ou tentavam acolhida na casa de um dos moradores, o que teoricamente é vedado pela empresa…

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Preparando a bóia da noite.

Andamos pelo vilarejo observando a rotina e conversando aqui e ali, localizamos uma venda, depois fomos a casa de um *senhor fictício que alugaria quartos, mas ele negou a informação. Descobrimos uma senhora que fazia pães, e após comprarmos um pro nosso café da manhã, perguntamos se não haveria algum lugar pra passarmos a noite, pois o hotel era muito caro… bingo! A senhora, de nome e sorriso lindos iria nos acolher nesta noite. Combinamos que chegaríamos às 20h e ainda fomos convidados pra participar de uma churrascada que haveria à noite…

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Depois de jantarmos, aguardamos a hora de nossa entrada na estadia. Desde que chegamos à Peulla, um fato curioso aconteceu. Uma cachorra toda saltitante, conhecida por todos no local, de nome “Fani” ficou na nossa cola. Era a “perra” dos “carabineros”, nos diziam, e tinha chegado até ali acompanhando outros cicloturistas que vieram no caminho oposto ao nosso. Não entendíamos direito a história naquele momento…

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Quando chegou a hora, fomos até a residência que nos acolheria, ocuparíamos o quarto principal da casa e combinamos R$ 50,00 como pagamento. De 50 pra 500 e a concorrência entre moradores e hotel nos pareceu óbvia. No capitalismo é assim, é livre a concorrência desde que apenas um empresário que vive bem longe dali seja o único dono dos dividendos…

Tomamos banhos bemmmm quentinhos e fomos nos sentar à mesa com alguns alegres moradores de Peulla. Soubemos um pouco de suas vidas, seus sonhos de viajar pelo Chile e de vir ao Brasil só pra ver a Copa mesmo… Já havíamos jantado, então aceitamos um pouco do vinho pra nos integrarmos um pouco mais. Foi uma rica experiência.

De Petrohue a Peulla – 21/02/14 (sexta)

A estrada mais bela.

Saímos de Entre Lagos e ainda teríamos mais um tanto de rípio ate chegar no asfalto novamente. Neste trecho da viagem nós a “encurtamos” pra não depender de ônibus. Havíamos pensando em percorrer a margem oeste do Lago Lanquihue e quem sabe, chegar em Puerto Montt e conhecer o Oceano Pacífico…

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Lago Rupanco

 

Os ventos argentinos nos cobraram um preço, mas o encurtamento do trajeto chileno não fez dele algo menos interessante, pelo contrário, dias ensolarados nos acompanharam, e talvez esse nos reservou a paisagem de estrada mais bela.

Aos poucos, um pontiagudo coberto de neve se fez notar no horizonte…

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Segure o queixo pra não cair…

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Era ele: o Majestoso Vulcão Osorno.

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Fios deveriam ser proibidos por aqui…

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Ok ok, pra quem vive por aqui, já deve ter se acostumado com essas paisagens…

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Chegamos em Las Cascadas e procuramos um camping para ficarmos. Localizamos um bem próximo do lago, estava ventando muito e tentamos nos abrigar nas proteções ao vento instaladas no local. Quando nos arrumamos pro banho, surpresa! Só banho frio… e ainda no caso do banheiro feminino, estava entupido e todo alagado… poxa vida!

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O jeito foi preparar um macarrão experto e apreciar o por do sol. Pra ser sincera, o banho nem fez falta.

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De Entre Lagos a Las Cascadas – 19/02/14 (Quarta-feira)

Distância: 61,56 Km

Velocidade Média: 11 Km/h

Velocidade Máxima: 33,9 Km/h

Tempo: 5 h 33 min

Total: 811,1 Km

 

Sobre minha Mãe.

Que "Enya" siga abençoando @s "avatares" aqui...

Que “Enya” siga abençoando @s “avatares” aqui…

Levantamos cedo pois o pedal seria longo e de muito rípio. Não queria nem pensar em ficar pelo meio do caminho, porque era aniversário da minha mãe e tinha que ligar pra ela. Não era a primeira vez que estávamos pedalando em dia de aniversário dela e, aliás, foi no seu aniversário em 2008 que reencontrei a bicicleta depois de adulta.

Preparando as águas pro longo dia de pedal.

Preparando as águas pro longo dia de pedal.

A bicicleta abriu outras perspectivas de vida pra mim, literalmente me apontando novos caminhos. Fico pensando na possibilidade de algum trabalho relacionado à ela, uma vez que estava/estou descontente com o meu. Nessa viagem, me lembrei várias vezes de minha mãe, ficava me inspirando em seu exemplo, e sonhando com “um negócio” do lado do seu. Minha Mãe é uma empreendedora bem sucedida, que soube lidar com as adversidades da vida, e junto com meu pai, construir um trabalho, uma família e uma casa (eu que pensei/ desenhei a planta!!! rsrs) lindas! Bom, por essas e outras coisas, um telefonema ao menos era obrigação!

Terrípel!!!

Terrípel!!!

Só tivemos um pouquinho de asfalto na saída da cidade, depois era rípio que não acabava mais. Em alguns trechos em manutenção, alguns caminhões passavam por nós e levantavam uma enorme nuvem de poeira. Digamos que foi um dia encardido, até nas paradas pra comer.

Óculos tatuado na cara pela poeira!

Óculos tatuado na cara pela poeira!

Mas seguimos firmes, fortes e doloridos. Nas minhas últimas montadas na bicicleta, me lembro de sentir dor dos pés à cabeça, literalmente. 77 km de rípio puro foi pra sofrência dos “peões”, e o rípio está eleito o pior “piso” pedalável de nossa história.

Chegamos em Entre Lagos e a alegria chegou junto! Primeira coisa a fazer foi ligar pra casa e ter minha Mãe ali bem pertinho. Muitas felicidades sempre! Estávamos tod@s bem… Escolhemos mais uma cabaña aconchegante pra aproveitar o dia seguinte, que seria de folga! Mais um dia de missão cumprida!

 

De Lago Ranco a Entre Lagos – 17/02/14 (Segunda-feira)

 

Pedal:

Distância – 77,55 km

Velocidade Média – 10,3 km/h

Velocidade Máxima – 37,1 km/h

Tempo – 7h 29min

Total: 749,5 km

Até de baixo d`água!

Enquanto arrumávamos nossas malas pra partir, recebemos visita.

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Ela brasileira, ele chileno, estão dividindo a vida entre lá e cá e querendo estabelecer um restaurante em Los Lagos, vieram conhecer @s brasileir@s que estavam passando por ali.

Partimos em direção à Futrono/ Baía Coique, teríamos uma subidinha pela frente mas a quilometragem seria curta. Este foi o dia de paisagem mais monótona, coisa rara nessa viagem. Não tinha nada de interessante pra ver era só pedalar e pedalar mesmo, num retão danado. No início da manhã ainda tínhamos bastante frescor, mas com a passagem das horas o dia esquentou bastante, nada que um pontinho de ônibus mais que demais não pudesse resolver.

Sombra para o primeiro lanche do dia!

Sombra para o primeiro lanche do dia!

É retão que não acabava mais...

É retão que não acabava mais…

Perto do meio dia o sol já estava quente.

Perto do meio dia o sol já estava quente.

Mais um dia de almoço no ponto de ônibus!

Mais um dia de almoço no ponto de ônibus!

Felizmente, chegando ao destino, tudo ficou lindo de novo. Fomos nos aproximando do lago que o sábado tinha deixado cheio de gente. Chegamos na entrada do camping e NÃO TINHA VAGAS!!! Como assim não tem vaga no camping???? Ah esses brasileir@s mal acostumados e mal criados!!! Não ter vaga em camping é algo inadmissível pra mim… a primeira argumentação básica é sempre o “mas estamos de bicicleta”! E o que as pessoas podem fazer se nós é que tomamos essa decisão???

Enfim, a choradeira comoveu… e afinal descobrimos o que significava o “não ter vagas”. É que o magnífico camping disponibilizava um banheiro PARTICULAR pra cada grupo… isso mesmo. No camping tínhamos a chave do nosso próprio banheiro, e nada pode ser mais luxuoso que um banheiro próprio no camping… rsrs. Nos ajeitaram numa parcela menor que a dos demais, que não caberia um carro, mas tudo bem! Afinal, estávamos de bicicleta!

Nos arrumamos rapidinho no local e fomos praiar! Eita delícia que estava aquele lago gelado! Deu até dar um tibum com categoria, só não dava pra ficar muito na água pra não correr o risco de congelar… mas era só ficar um pouquinho no sol que tudo se resolvia de novo.

Vamos a la playa!

Vamos a la playa!

Ah! O verão!

Ah! O verão!

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Sorriso gelado!

Sorriso gelado!

Que relaxante que é entrar na água gelada. Que delícia de pernoite tivemos neste local…

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Dia 20 – De Los Lagos a Baia Coique – 15/02/14 (Sábado)

Pedal:

Distância – 54 Km

Velocidade Média – 11,6 Km/h

Velocidade Máxima – 37,1 Km/h

Tempo – 4 h 38 min

Total – 631,7 Km

Ventos Chilenos

Acordamos debaixo de um pé de vento. E nós que achávamos que eles tinham ficado na Argentina… Devido meus severos erros de atalhos no dia anterior, a quilometragem do dia seria bem pequena, de todo modo, no cronograma geral estávamos bem atrasados, o que não nos dava mais tempo pra preguiça.

Enquanto tentávamos levantar acampamento, tudo queria voar, todos os movimentos deviam ser friamente calculados pra não perdemos nada na ventarola. O camping estava polvoroso, era lona batendo pra todo lado e gente correndo atrás das roupas que um dia estiveram no varal.

De repente, debaixo de sol e céu azul, um trovão cortou o céu e foi dar em cima de uma caminhonete. Era uma gigantesca árvore que não resistiu às insistentes provocações do vento nesta manhã. Por sorte, ninguém se machucou. Mais corre corre no camping pra ver se estava tudo bem e pra conseguir livrar o carro de um emaranhado de madeira e folha. Saímos ainda em meio ao barulho da moto serra e morrendo de medo que mais alguma árvore viesse abaixo na nossa direção.

Já na estrada, diferente do que aconteceu na Argentina, o vento não nos atrapalhou, talvez pelo fato da estrada ser mais entrecortada, ou dele estar a nosso favor e assim, em mais um dia bonito de verão, chegamos rapidamente ao nosso destino, a cidade de Panguipulli.

Estávamos desejosos de uma caminha macia após muitos dias de camping e, sem muita coragem de pesquisar por bons preços, ficamos num hotel charmosinho bem no centro. O bom é que ainda deu tempo de aproveitar a tarde e comer nossos lanches na beira do lago.

Tinha até onda!

Tinha até onda!

 

Curtindo uma "praia" chilena.

Curtindo uma “praia” chilena.

De Lican Ray a Panguipulli – 13/02/14 (Quinta-feira)

Pedal:

Distância – 36,25 km

Velocidade Média – 12,9 km/h

Velocidade Máxima – 39,4 km/h

Tempo – 2h 48min

Total – 506,5 km

No topo do Vulcão Villarica

A subida ao Vulcão Villarica foi motivo de muitas conversas, medos e indagações antes de nossa viagem… precisa mesmo disso gente??? Sempre achei muito estranho pessoas colocarem a vida em risco por conta destas aventuras… os adeptos devem rir deste tipo de ponderação uma vez que essa é uma subida considerada fácil, e realmente me parece que sim, é fácil, não requer nenhum treinamento ou experiência prévia, apenas alguns equipamentos específicos e dicas de como utilizá-los. MAASSS… já morreu gente escalando esse vulcão… ok, já morreu gente atropelada no centro de São Paulo e nem por isso eu deixo de trabalhar por lá. Então tá! Vamos logo escalar esse vulcão!

A ida às termas foi uma benção pra termos uma noite maravilhosa e dormir feito uns anjinhos. Às 5 da manhã o despertador nos encontrou descansados e dispostos. Nos arrumamos rapidamente (coisa rara) e fomos ainda de noite caminhando pra agência. Quando chegamos lá, já tinha um monte de gente se vestindo, ajeitando as coisas nas mochilas, ao que pudemos apenas conversar um pouquinho com um casal de brasileiros que também comporia o grupo e já embarcar na Van que nos conduziria até a base do vulcão. O tempo estava bastante nublado o que poderia ser um fator impeditivo pra subida, mas já tinham avisado que na manhã anterior também estava assim, e que com o passar das horas as nuvens se dissiparam e foi possível realizar a ascensão.

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Já na base do vulcão, as nuvens ficaram lá embaixo.

Há a opção de seguir caminhando todo o trajeto ou fazer uma parte de teleférico (que tem que pagar separadamente, não está incluso no pacote), o que é a opção da grande maioria. Só a caminhadinha até lá já dava o tom da brincadeira… ia ser puxado! Se adequar à mochila parecia ter que carregar um imenso casco de tartaruga, e as botas, patas de elefante.

P R E P A R A!

P R E P A R A!

Dois a dois se posicionavam na plataforminha do teleférico, tinha que ficar esperto, não havia tempo de parada, uma mão tinha que segurar a mochila posicionada na frente do corpo e a outra ficar livre pra se agarrar à condução. Nossa vez! Respira… respira… e vlupt! Fomos catapultados para cima! Nem dá muito tempo de errar e na sequência você já está balançando pra frente e pra trás com os pés abandonados na direção do penhasco… o vento gelado fazia um afago no rosto e cantamos baixinho a música que nos acordou, instintivamente, talvez pra mandar o medo pra longe…

“Oni saurê, Aul axé, Oni saurê Oberioman Onisa aurê, Aul axé Baba, Onisa aurê Oberioman Oni saurê”

Que a tradução que localizei seria essa aqui:

Rei/Senhor do Céu De Energia, Força e Suprema Verdade Rei/Senhor Que continua Vivo Espiritualmente Rei/Senhor dos Céus Pai do Plano dos Orixás (Céu/Aruanda) Sua Verdade é Suprema

A música é “Canto pra Oxalá”, que conhecemos no belíssimo trabalho de Rita Ribeiro, o “Tecnomacumba”, que além de minimizar meus tantos preconceitos com as religiões de matizes africanas, também me ajudou a ter outra referência com a natureza, que creio que a religião cristã/ católica na qual fui ensinada, deixa a desejar. Mas acho que finalmente, eu começava a aprender o significado que na tradição cristã quer ter o chamado “temor a Deus”.

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Destino: aquela fumacinha láááááá em cima iluminada pelo sol.

Saindo do teleférico o grupão da nossa agência foi reunido e os guias foram nos separando conforme as habilidades de cada um. Estávamos nuns três grupos, fomos selecionados para o último… os guias já avisaram que, chegando na neve, eles diriam quem poderia ou não continuar, e não adiantava retrucar, pois a partir dali, se algo acontecesse eles não poderiam nos ajudar muito.

Já to te esperando Aninha...

Já to te esperando Aninha…

A gente já chegou?

A gente já chegou?

Colei no nosso guia e tentei acompanhá-lo o mais de perto possível, ele ia tão devagar! E eu me concentrando só em respirar mesmo, nada de olhar pra baixo, tão pouco pra paisagem. Outros grupos pareciam bem mais descontraídos, fazendo piada e não se importando muito, o nosso estava mais quieto, o guia também, só de vez em quando anunciava “Chicos, estamos llegando, só mais um pouco!”, e geralmente quando ele anunciava a próxima parada eu já tava pedindo arrego… esse início parecia uma corrida entre as diversas agências porque são tantas que até parar pra comer na montanha é disputado. Digamos que não há bancos e mesinhas pra fazer o lanche, apenas um lugar menos íngreme pra apoiar a mochila sem que essa saia rolando, ou quem sabe você.

A fila!

A fila!

Pausa pro lanche.

Pausa pro lanche.

Chegando na fronteira gelada.

Chegando na fronteira gelada.

Chegando na neve era hora de recebermos a notícia se poderíamos ou não seguir em frente… e foi triste ver a dispensa do outro casal de brasileiros. A guria estava mesmo muito abatida, e felizmente seu namorado decidiu por acompanhá-la. Eu me sentiria muito decepcionada! Não só pelo dinheiro, mas pela impossibilidade de concluir uma ação que decidi fazer… Até ali, parecia mesmo que a profecia do vendedor da agência poderia se confirmar, somente 50% dxs brasileirxs que compram o pacote chegam ao cume, bastava para isso que a gente chegasse.

Outros pontiagudos no horizonte.

Outros pontiagudos no horizonte.

Fila pra baixo.

Fila pra baixo.

Fila pra cima.

Fila pra cima.

Na parte da neve fomos orientadxs a colocar as roupas de frio, e realmente estava muito frio! Com aquele tanto de roupa e especial umas luvas que foram desenhadas pras mãos da Turma da Mônica e não pras nossas, a gente tava um pouco desajeitado… A euforia inicial dos grupos diminuiu e todxs estavam mais concentradxs na trilha de gelo que tínhamos que seguir. O guia já estava um pouco mais conversador e nos contou algumas coisas sobre o seu trabalho diário de escalar um vulcão. Sobre a liberdade e o prazer que sentia em estar na montanha todos os dias, e não preso em uma sala. Uma das coisas mais importantes falou, que em geral segundo ele os turistas não entendiam, é que o que eles vendem não é o cume do vulcão, não há como vender o que cada um tem que conseguir por si. O que eles vendem, na realidade, é a experiência que eles têm com a montanha, achei bonito isso… Ele conseguiu dar um sentido importante pro seu trabalho.

Formigas pra baixo.

Formigas pra baixo.

Formigas pra cima.

Formigas pra cima.

A gente já chegou??? II

A gente já chegou??? II

Chegamos no almoço.

Chegamos no almoço.

Deitada pra não rolar...

Deitada pra não rolar…

Restaurante com vista panorâmica.

Restaurante com vista panorâmica.

Vamos conseguir! Nada de cochilinho depois do almoço...

Vamos conseguir! Nada de cochilinho depois do almoço…

Do gelo pra frente só precisamos ter paciência. Olhar pra cima parecia fazer da tafera algo impossível, por isso era melhor se concentrar apenas no próximo paço, o que já demandava bastante energia. De repente a garganta começou a coçar e um cheiro de enxofre invadiu nossas narinas, estávamos próximos o bastante do bafo quente do rapaz cuspidor de fogo e nossos lencinhos ajudaram bastante a suportar seu mau hálito. Estava ventando, o que era bom pra dissipar a fumaça tóxica e quando finalmente atingimos o cume, pudemos nos posicionar contra o vento e aproveitar melhor a estadia. Um grupo da agência que chegou antes não pode aproveitar como nós por conta da fumaça. No final, nossa lentidão acabou ajudando.

C-H-E-G-A-M-O-S-!-!-!

C-H-E-G-A-M-O-S-!-!-!

Tocando "Brasileirinho"

Tocando “Brasileirinho”

De rostinho colado com "La Fumacinha"!

De rostinho colado com “La Fumacinha”!

Que bafo né?

Que bafo né?

Com nosso guia! Obrigada pelo seu trabalho moço!

Com nosso guia! Obrigada pelo seu trabalho moço!

No topo a galera estava eufórica novamente, faltava pular no buraco (literalmente) pra tirar foto de rostinho colado com a lava… o guia nos relatou episódio em que quase foi derrubado pra dentro do vulcão pelo próprio grupo que guiava, ocasião em que a agência em que trabalha determinou que não mais iriam ao famigerado local, onde observávamos a presença de muitas pessoas.

O "morrinho" de onde nosso guia quase desabou. Os guias dessa agência não vão mais a este local.

O “morrinho” de onde nosso guia quase desabou. Os guias dessa agência não vão mais a este local.

Na boca da cratera, além da fumaça, há muita neve... (???)

Na boca da cratera, além da fumaça, há muita neve… (???)

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Melhor não andar por essa parte…

Ah! Antes que me esqueça, não dá pra ver a "lava", pra nossa sorte... rsrs

Ah! Antes que me esqueça, não dá pra ver a “lava”, pra nossa sorte… rsrs

Próximo destino?

Próximo destino?

Tiramos também nossas fotos pra registrar o momento histórico e já era hora de descer. Novamente éramos os últimos da fila, nós e mais 3 espanhóis acompanhados por 2 guias agora bastante apressados pra descida, pois alguém teria se machucado e a Van da agência tinha que partir. Acho que era só desculpa pra nos apressar mesmo, o que não adiantou muito, mas também não permitiu que registrássemos o momento mais divertido do passeio, talvez o único de pleno prazer, que gostaria muito de repetir, não fosse o fato de ter que subir um vulcão para isso… rsrs

Imagine um tobogã gigante. Era o que tínhamos pra brincadeira agora. A descida de tantas pessoas vai formando verdadeiros túneis no gelo e chega a dar a sensação que você vai mesmo é decolar tamanho o embalo que pega.

Primeiro a explicação de como proceder, onde retiramos da mochila um “plástico” onde sentamos e somos ajudados a escorregar (ah que saudades do papelão e do famoso “morrinho” de terra da minha rua da infância). A picareta que nos ajudou na subida agora serve de freio de mão. Nas primeiras vezes que utilizei tava até usando o cotovelo junto, mas depois percebi que no fim de cada “túnel” se acumulava um gelo fofo que, se não nos levava embora como numa avalanche, ajudava a parar.

Como tudo que é bom também termina, descer a parte de gelo foi mais rápido que subir… (são 4 horas subindo e 2 horas descendo). Chegamos na parte sem gelo e nas palavras do guia, agora tínhamos que fingir estar na lua e dar passos largos diretamente pra baixo, nessa última brincadeira Flávio ganhou uma unha preta no dedão, que depois da viagem veio a cair. Essa parte já foi cansativa novamente e o sol já ia alto, aumentando o calor e o cansaço.

Na chegada à base a Van já tinha ido embora e um carro menor nos conduziu de volta à agência onde uma rodada de cerveja gelada nos aguardava. Ficamos conversando com os espanhóis, nossos derradeiros companheiros que, mesmo acostumados a caminhar, foram surpreendidos pela grande dificuldade da subida. Imagina a gente que nunca tinha colocado um mochilão nas costas…

O fim da tarde foi de alívio e espanto… Uma estranha sensação que demorou pra irmos digerindo. Naquele momento queríamos mesmo deixar Pucón e seguir viagem com nossas humildes bicicletinhas…

Dia 16 – Subindo o Vulcão Villarica – 11/02/14 (Terça-feira)

Cidade Linda!

Em Pucón precisávamos descansar e colocar as idéias em ordem. Estávamos um tanto atrasados em nosso cronograma mas nem um pouco afim de pressa. Já imaginávamos, pelas dificuldades em nossa preparação física e pelas dificuldades no caminho, que nossos planos estávam em aberto, incluindo um possível trecho em ônibus. Preferimos relaxar, afinal, são férias!

O nosso camping não era tão perto do centro, mas mesmo assim resolvemos dar uma folga pras bicicletas e fazer tudo caminhando. Lá no fundinho do pensamento pensava eu que caminhando estaríamos treinando as pernas para a subida do vulcão… hehe, quanta inocência… mas como já chegamos fazendo amizade, de cara já ganhamos carona até o centro com um simpático casal, nossos vizinhos.

Do camping era possível avistar um dos destinos mais aguardados da viagem...

Do camping era possível avistar um dos destinos mais aguardados da viagem…

A cidade de Pucón é bem grande e me pareceu mais interessante que Bariloche. Logo de manhã havia uma multidão de gente toda colorida que havia participado de uma corrida onde um ia pintando o outro, tava com cara de carnaval. Fizemos todas as compras que precisávamos, incluindo o pacote de subida ao Villarica que na verdade nos fez ficar um dia a mais na cidade, pois não havia mais vagas para o dia seguinte… fechamos direto na agência de onde partiríamos e não no intermediário, mas o preço foi o mesmo, um dos mais caros que nos foi ofertado, mas o pessoal que nos pareceu mais sério e nos deu mais atenção. Se vendem subidas ao Villarica como quem vende uma passagem do expresso turístico que vai pra Paranapiacaba, é bem estranho.

Qualquer coisa, corre fiiii!!!

Qualquer coisa, corre fiiii!!!

A cidade é linda, mas quem manda aqui é o cuspidor de fumaça, não esqueça.

A cidade é linda, mas quem manda aqui é o cuspidor de fumaça, não esqueça.

Olha ele lá, todo pomposo.

Olha ele lá, todo pomposo.

Já que ficaríamos mais um dia, decimos investigar quanto ficaria ir por conta própria às Thermas. Descobrimos as linhas de ônibus e o preço direto na bilheteria, a diferença era absurda! #ficadica.

Lago Villarica

Lago Villarica

Almoço e tarde ficamos no camping dedicados aos afazeres domésticos e a noite fomos num restaurante próximo. O papo foi longo, o casal dono do restaurante era de origem nativa, porém, povos rivais. Ficaram nos contando as histórias da região e de seus planos pessoais com o restaurante. Também aprendemos sobre o durasno e com mímica desvendamos o abacaxi. A atenção foi exclusiva porque no fim só tinha a gente no restaurante. Foi uma noite muito prazerosa.

Dia 14 – Conhecendo Pucón – 09/02/14 (Domingo)