Entrevista com Maguiorina Balbuena

Maguiorina Balbuena foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz em 2005, através do Projeto: “1000 Mulheres de Paz pelo Mundo”, uma provocação junto aos organizadores do prêmio, que ao longo de mais de 100 anos, pareciam haver esquecido as mulheres… Foram indicadas mulheres dos 5 continentes e 150 países. No Paraguai, foram 4 as mulheres indicadas, Maguiorina é uma delas:

“A los 18 años, trabajando como doméstica en casas de importantes familias, empecé a preguntarme por qué la mía era tan pobre y sin embargo esa gente lo pasaba tan bien.

Maggi -Maggiorina Balbuena- nació y creció en medio del campo donde el verde del follaje de los árboles se confunde con el limón de las chalas de los maizales y el polvoriento caminito rural. Hija mayor, cuidó como quien cuida un tesoro, de sus nueve hermanos. Aprendió a cultivar y a amar la tierra como el mandamiento primero de la vida. Conoció y sufrió la pobreza extrema que envolvía a todos los campesinos. Allí nació su revelación y su lucha”. (Fonte: http://www.1000peacewomen.org/spa/friedensfrauen_biographien_gefunden.php?WomenID=2157)

Nossa entrevista se deu na sede da CONAMURI, em Asunción/ Paraguay, dia 26 de janeiro de 2012.

Parte I

Início: Apresentação, infância e engajamento político;

4° Minuto: História do Paraguai, Guerra da Tríplice Aliança e conflitos com a Bolívia;

17° Minuto: História recente do país, com inserção subordinada a outros países como Estados Unidos e Brasil;

Parte II

Início: Indicação ao Prêmio Nobel com o Projeto “1000 Mulheres pela Paz”;

1° Minuto: Caso Silvino Talavera, criança morta por intoxicação de agrotóxicos da Monsanto;

7° Minuto: Atual situação da luta das mulheres no Paraguai;

Paraguay à Dentro!

Preparativos

Diários de Bordo (nem tão à bordo assim…)

Considerações Finais

Foi um pedal bastante duro devido o calor, mas nos revelou uma forma diferente de conhecer lugares através da história de pessoas que consideramos importantes. A entrevista com Maguiorina Balbuena foi um grande aprendizado, muito esclarecedora, em especial para melhor compreendermos os recentes fatos que infelizmente ocorreram no país com a destituição do Presidente Fernando Lugo.

Também nesta viagem tivemos pela primeira vez um acidente mais grave, de modo que não conseguimos realizar todo o percurso pedalando. Contar com a solidariedade do povo paraguaio foi muito importante! E felizmente conseguimos conhecer o país um pouquinho mais, deixando-o fazer parte de nossa história.

Outros relatos de viagem pelo Paraguai:

A viagem de Arthur Simões pelo mundo também passou pelo Paraguai

E a que mais nos trouxe informações sobre o país e sua gente foi a bela viagem de Élcio em sua reclinada.

Partida

Amanhecemos tranquil@s em nosso último dia de Paraguay. Café da manhã bem tomado, tínhamos tempo até nosso embarque que se daria próximo ao meio dia. Com as bicis já na rodoviária, não tivemos maiores problemas para deixar o carro na locadora e ir de táxi tomar nosso ônibus rumo a São Paulo.

No horário marcado descobrimos porque pagamos barato nas passagens, um “pueirinha” estava à postos para a longa viagem.

Sem grande ânimo embarcamos num ônibus quase vazio e nas próximas horas viveríamos e conheceríamos um pouco mais sobre o mundo dos “muambeiros”.

As paradas para refeição e banheiro se deram em locais “alternativos”, algumas vezes a própria garagem da empresa, com algum botequinho vendendo um pingado. A primeira “revista” se deu logo na saída de Foz, onde observávamos as bagagens sendo jogadas ao chão.

O que intrigava era que o ônibus continuava vazio… o que foi compreendido logo após Foz, quando uma grande quantidade de brasileir@s adentrou ao ônibus portando muitas e grandes sacolas. Mais uma revista agora com cães nos farejando já dentro do ônibus. A grande questão, pelo que ouvimos, não estava nas muambas, mas sim na procura por armas e drogas.

A viagem não foi tão difícil como supomos ao início, conversamos bastante com um casal paraguaio que estava indo a São Paulo passar férias na casa de familiares. Também havia um jovem argentino fazendo um caminho maluco pra chegar em São Paulo de forma mais barata e embarcar para um pequeno país da Europa, onde ficaria na casa de uma guria que conheceu na internet… havia também um brasileiro que estivera hospedado no mesmo hotel que ficamos em Asunción. Ele era um dos que faziam mestrado por lá e também não havia conseguido passagem de avião para retornar.

Faltavam uns 50 km para chegar em São Paulo quando mais uma vez fomos parados. Eu já estava um pouco cansada daquela história e me irritou bastante dois policiais militares, sem identificação, adentrar ao ônibus para mais uma revista… Num momento de insanidade, solicitei ao servidor público que se identificasse, e ganhei em resposta uma revista mais detalhada de minhas coisas e acento… Ele até mostrou o nome que fica colado em sua camiseta, já o guardando novamente no bolso, alegando que poderia perdê-lo ao manusear as bagagens…

Mas… enfim chegamos em São Paulo com um pouco de atraso. Meus pais foram nos ajudar na rodoviária com todas as coisas e nem se assustaram tanto com a carinha do Flávio, que já estava bem melhor.

Terminando o roteiro

Apesar de não podermos pedalar, decidimos completar o percurso, passando pelas cidades programadas no nosso roteiro, pegamos o carro e fomos em direção a cidade de Aregua.

Durante o trajeto pela cidade ficamos observando o trânsito de Asuncion, pensando como seria pedalar por aqui. Era tão caótico como toda grande cidade, muitos carros, muitos ônibus, pouco respeito pelas pessoas. Levamos o GPS e fomos seguindo a estrada, passando por outros bairros, chegando a paisagem rural.

O ar condicionado nos protegia dos quase 40 graus, enquanto nos aproximávamos de Aregua, o ponto forte da cidade é um Parque com um lindo lago ou represa. Haviam muitas pessoas passeando pelo local, pagamos alguns guaranis pelo uso do banheiro, depois nos aproximamos da represa.

Uma paisagem de cartão postal, não tivemos coragem de entrar na água, apesar do calor e pensamos no quanto essa água seria bem vinda se chegassemos de bike, sem dúvida entraríamos de roupa e tudo.

Andamos de lá pra cá, observamos uma piscina que por ser paga, estava vazia. Mas também, pra quê piscina com essa água toda pra nadar.

De lá seguimos de carro para Caacupe, um local místico-religioso, no caminho, seguindo o roteiro de nosso antecessores, paramos para almoçar na Churrascaria Brasil.

Caacupe tem um quê de Aparecida do Norte, uma cidade de peregrinação, com sala de milagres, lojas de lembrancinhas e orações.

Uma enorme catedral, passamos pela imagem da Santa, colocamos nossas mãos nas marcas nas pedras, como faziam todos, fizemos nossa oração silenciosa, deixando entrar a mística do lugar.

Depois subimos por escadas que nos levavam para o alto da catedral, durante a subida íamos acompanhando um roteiro de imagens, fotos e desenhos que iam nos contando sobre a origem da Santa, uma história sobre a catequização dos povos indígenas, sobre um índio artesão que esculpiu a imagem. Uma história contada pelo dominador, pelo vencedor, atribuindo aos padres e a igreja a salvação das pessoas. Negligenciando a narrativa da invasão e morte dos povos da floresta, de seu extermínio, do fim de sua cultura, substituída pela crença católica e a sociedade tecnológica. Existem pinturas rupestres que demonstram que haviam nas Américas, povos da floresta há 30 mil anos atrás, e pelo modo de vida e organização social poderiam continuar vivendo por mais 30 mil anos, sem ameaçar sua sobrevivência, em contrapartida, nossa civilização tecnológica em apenas 2 mil anos pôs a vida do planeta em risco. Quem será o civilizado da história?

Do alto da catedral podemos ver um céu e uma paisagem deslumbrantes.

Antes de acabar o relato gostaria de retomar a narrativa de Galeano, em seu livro “As veias abertas da América Latina”, para explicitar o que falou Magui em sua entrevista.

A Guerra da Tríplice Aliança (1865) foi a causa do extermínio de milhares de cidadãos paraguaios, Brasil, Argentina e Uruguai fizeram esse genocídio. O Paraguai em 1845 era uma exceção na América Latina, sem pobreza ou desigualdade, com toda população alfabetizada. Contava com uma linha telegráfica, uma ferrovia e boa quantidade de fábricas nacionais. O Estado virtualmente monopolizava o comércio exterior, com grande superávit. O país tinha uma moeda forte e estável, sem nenhuma dívida externa. Noventa e oito por cento do território paraguaio era de propriedade pública, não havia concentração de riqueza ou de terras nas mãos das oligarquias. A Tríplice Aliança, orquestrada pela Inglaterra, acreditava que tomaria Asuncion em três meses, porém o povo se uniu e lutou bravamente por cinco anos. Apenas a sexta parte da população sobreviveu. Hoje o Paraguai não é nem a sombra do que foi um dia.

Na frieza da estrada…

Pensamos em estratégias para prosseguirmos viagem, ontem Ana foi até a rodoviária de Coronel Oviedo para ver a distância e constatou que era longe pra ir empurrando a bike, podíamos desmontá-las, colocá-las nas malas-bike e levá-las de táxi, mas nesse caso, ficaríamos com várias malas para carregar, enquanto que com as bikes montadas com os alforges só tínhamos as mesmas para empurrar. Pensamos em pedir um táxi e ver se conseguíamos colocar minha bike dentro.

Tomamos o café no hotel, deixamos o que sobrou de nossas compras com as meninas da recepção, não iríamos mais cozinhar, pagamos a conta e chamamos o táxi, o motorista foi atencioso, tentou colocar a bike no porta-malas, depois no banco traseiro e nada, dessa forma não havia outro jeito, Ana teria que ir pedalando as duas bikes, deixamos a minha no hotel, colocamos todas as malas no táxi, entrei no táxi e Ana foi com sua bike.

O táxi chegou rapidamente na rodoviária, procurei um banco para sentar, o motorista ficou esperando, quando Ana chegou deixou a bike comigo e voltou com o táxi para o hotel. Fique lá observando o movimento das pessoas e dos ônibus, vendedoras e vendedores circulando de-lá-pra-cá, com lanches, refrigerantes, bijuterias, relógios e tudo mais.

Ana voltou com minha bike, estava exausta, meu quadro era alto e ela não conseguia pedalar sentada, pedalava em pé e sentava nas descidas. Achávamos que o motorista do táxi iria nos enfiar a faca, mas não, apesar de não ter taxímetro nos cobrou um valor modesto. Compramos as passagens até Asunción, um rapaz da companhia ajudou com as bikes e quando o ônibus chegou ajudou a colocá-las nas bodegas.

O ônibus era confortável, com dois andares, fomos no andar de cima e boa parte da viagem fomos no primeiro banco vendo os acostamentos. Estranho como andar de bicicleta muda a perspectiva da viagem, naquele ônibus nem parecia que estávamos na estrada, era como estar em casa assistindo a televisão, não sentíamos o calor, o vento, os cheiros, tudo passando rapidamente pelas janelas do ônibus.

A paisagem era composta por muitas áreas rurais, fazendas imensas para poucas vacas e bois.

Chegamos na rodoviária, colocamos as coisas nas bikes, almoçamos, percebemos que os preços de Asunción eram mais altos que nas demais cidades, muitos preços, inclusive, eram em dolar.

Deixamos as bikes no guarda-volumes e fomos de ônibus até o aeroporto, usamos dois ônibus de linha.

O aeroporto era pequeno, subimos até o saguão e fomos ver se tinham passagem para São Paulo, na TAM fomos informados que não tinham mais passagens nem pra sexta, nem pra sábado. O preço para domingo era de oitocentos dólares por passagem. Haviam outras passagens, mas o vôo era de 16 horas, já que passava por Buenos Aires antes de ir para São Paulo.

Sentamos em um gostoso café próximo ao saguão lotado de brasileiros e acessamos a internet em busca de informações. Todos ali eram estudantes indo para o Brasil, uma fila enorme para embarque.

Pensamos em ir até Foz e pegar um avião lá, mas achamos que seria uma dificuldade levar as bikes para o hotel, depois para o aeroporto, seria muito complicado. Achamos que o melhor seria pegar um ônibus de Asunción à São Paulo, pela internet vimos um ônibus da empresa Puma, que saía no sábado ao meio dia. As bikes já estavam lá na rodoviária mesmo, seria tudo mais fácil.

Alugamos um carro ali no aeroporto, por 3 dias, ficou bem caro, mas foi o jeito. Saímos pela cidade, olhando pelo GPS e buscando pelos hotéis. Andamos por vários hotéis e os preços eram em dólar ou caros, mesmo em guarani. No centro velho encontramos um hotel que gostamos, confortável e num preço razoável. Reservamos por 3 dias.

Fomos até a rodoviária, perguntamos o preço para deixar as bikes na própria rodoviária e achamos que o preço era justo, pela economia de trabalho. Levamos os alforges, chegamos no hotel já tarde da noite. O estacionamento era na rua de baixo, guardamos o carro e fomos descansar.

Ando devagar, porque já tive pressa…

Acordei me sentindo atropelada. Passada a tensão do dia anterior, e mesmo a gratidão por não ter havido nada mais grave, o corpo se deixara abater e a cabeça doía. Fiquei a manhã por também contabilizar meus arranhões e responsabilidades, sempre querendo alterar a cena do dia anterior, que de instante em instante me fazia gelar a barriga.

Também me deixei sentir tristeza por não completarmos a viagem, não imaginava quando é que poderíamos retornar ao Paraguai, se é que o faríamos…

Mas o dever (agora em dobro) me chamava, e Flávio possui muitas cotas de cuidados comigo, o que deixavam as tarefas mais fáceis de serem realizadas. Ele até já estava um pouco mais disposto e nós já desconfiávamos que seu nariz não estava quebrado, e sim, já era torto mesmo…

Como tínhamos que retornar ao hospital para trocar o curativo (mal feito) de sua mão, demos uma passadinha na prefeitura e na igreja da cidade para conhecer… ainda alimentando nossa ânsia viajante.

 

Em frente à Prefeitura, índia esmola com bebê no colo... é assim que se vê as índias bolivileiras da Sé.

Digamos que, com a invasão espanhola, a igreja se saiu "melhor"...

O novo curativo também se saiu um pouco melhor, só que agora ia até o pulso, e ainda ganhou uma tipóia pra ver se diminuía o inchaço da mão, que mais parecia um pão assado em dia de calor.

Voltamos logo ao hotel e eu, ao Supermercado que nos alimentou por esses dias. Um detalhe importante é que todas as vezes que estive por lá, era a mesma simpática “chica” balconista. Ia às 10h da manhã, era ela, ia as 10h da noite e a mesma moça… “Quantas horas você trabalha?”, “umas 12, todos os dias”, “mas quantas são permitidas por lei?”, “8”.

Não era a primeira vez que percebíamos essa enorme exploração do trabalho. No Hotel Germania, Mirta também saiu às 6 da tarde e as 6 do outro dia pela manhã, já estava lá pondo a mesa do café. O rapazinho  com cara do “quem quer ser um milionário”, do Hotel Cézar Palace, pelos vistos, também “vivia” no hotel…

Já pra noitinha, o rosto do Flávio, que ficou no gelo por estes 2 dias, já fazia menção que voltaria a seu formato normal rapidamente, já as cores iriam demorar mais um pouco… De toda forma, decidimos que continuaríamos a viajar, o que elevou os ânimos de nosso quarto e Flávio até mesmo se deixou fotografar novamente.

 

Conhecendo a estrada de perto…

A região de Caaguazú foi alvo de um plano de colonização do governo há anos atrás, mas segundo Galeano, em seu livro “As veias abertas da América Latina”, “oferece aos camponeses famintos mais tumbas do que propriedade” (p. 277). Ainda, segundo o autor,  1,5 por cento dos proprietários de terra dispunham de 90 por cento das terras exploradas, e se cultivava uma área equivalente a menos de 2 por cento da superfície total do país.

Uma das lideranças campesinas atuais é Maguiorina Balbueno, indicada ao prêmio Nobel da Paz de 2005, além dela mais 3 mulheres do Paraguay foram indicadas, tentamos entrar em contato com as mesmas, enviando mensagens eletrônicas, das 4 apenas Maguiorina nos respondeu. Dissemos que iríamos para Asunción e gostaríamos de fazer uma entrevista com ela que aceitou prontamente.

Na noite passada, do hotel enviamos um e-mail para Magui e dissêmos que estaríamos em Asunción dia 26 e gostaríamos de encontrá-la.

Pela manhã tomamos café no quarto, arrumamos os alforges e descemos, o café do hotel estava servido, tomei um cafezinho apenas e partimos, pegamos a estrada e seguimos em suas intermináveis subidas e descidas.

Nas descidas eu procurava soltar a bike e aproveitava o embalo para subir mais rapidamente, nestas horas passava Aninha, depois ia diminuindo as marchas até chegar a primeirinha, Ana me passava e continuávamos até a próxima descida. Nestas descidas chegávamos a 50 por hora, 52, 55 e lá ia eu tentando bater a última quilometragem.

O tempo todo íamos pelo acostamento, apenas em locais onde o acostamento era muito ruim ou as lombadinhas não tinham passagem é que íamos para a pista. Chegamos a uma descida onde lá em baixo vimos um estreitamento de pista, uma ponte sem acostamento, Ana saiu para o asfalto e segui atrás, ao mesmo tempo de olho o retrovisor, com medo de vir algum carro. Me sentia bem, peguei o embalo, embiquei para passar Aninha, comecei a pedalar, passamos a ponte, pensando em sair da estrada entrei no acostamento com tudo, só que com o tranco do degrau perdi o pedal, isso já me aconteceu outras vezes, de perder o pedal, mas era só deixar e o pé encontrava o pedal de novo, mas dessa vez minha roda de frente começou a balançar de um lado pra outro, no começo achei que ia dar pra segurar, mas não, a roda desequilibrou toda bicicleta, vi que ia cair, e cai, a primeira coisa que tocou o chão foi meu nariz, o resto veio atrás.

Não perdi a consciência, me estiquei no chão evitando me mexer, não sabia qual era meu estado, levantei a cabeça e vi Ana parando a bicicleta a uns 30 metros pra frente, sentei e vi que estava com sangue escorrendo pelo nariz, achei que o tinha quebrado, tirei os óculos que ficou todo riscado, mas creio que ajudou na proteção, tirei o capacete e as luvas, vi que a luva esquerda estava rasgada, ao tirá-la vi um furo profundo na parte posterior da mão, no ocinho entre os dedos médio e indicador, joguei água no rosto e usei a bandana para enrolar na mão que sangrava muito, ao mesmo tempo com ela enxugava o sangue que escorria do nariz.

Ana chegou e perguntou se estava tudo bem, depois correu para a estrada pedir ajuda, passaram uns dois carros sem parar, a seguir parou uma Saveiro. O rapaz deu ré e chegou perto de nós, me levantei e vi que minha camisa estava toda rasgada. O motorista e Ana colocaram as bikes na carroceria, entramos os 3 na frente e fomos. O rapaz perguntou o que queríamos fazer, ir para Oviedo ou voltar para Caaguazú, ele ia para Oviedo, tínhamos pedalado uns 20 quilômetros até a queda, mas sabíamos que Oviedo era uma cidade maior e calculamos que teríamos um melhor atendimento por lá. O nome desse rapaz era José e nos levou a um hospital Regional, ele deixou nossas bicicletas e partiu com nossa maior gratidão.

Fomos entrando no hospital, vimos uma placa de emergência e fomos entrando, uma moça disse que eu devia esperar em uma pequena sala ao lado, mas de lá outra me disse que eu devia entrar. Algumas enfermeiras vieram e começaram a limpar os ferimentos, pedimos que cortassem minha camisa, pois estava com vários furos e queríamos ver se não tinha mais nenhum machucado, a enfermeira não sabia direito o que fazer e cortou as mangas da camisa.

Meu rosto estava todo ralado, testa, nariz e queixo, também os joelhos e o dedo do pé esquerdo. Analisando os machucados, acho que não soltei o guidão ao cair, pois fiquei com marcas atrás das duas mãos, no lugar dos ocinhos dos dedos, a roda virou para a direita e o guidão para a esquerda, caí de frente mais para o lado esquerdo, bati o rosto e as mãos ainda segurando nas manoplas, depois devo ter rodado por sobre o ombro e caído deitado, pois bati também o calcanhar esquerdo.

Soubemos que o hospital estava enfrentando uma greve geral dos médicos, que atingia o país inteiro, apenas a emergência funcionava.

Fizeram uns curativos horríveis em minha mão, em meu dedão do pé e no joelho esquerdo, mas nossa preocupação maior era com o nariz, o médico me deu 3 pontos na mão esquerda e pediu para fazer um raio X da face, tomar uma antitetânica e receitou um antibiótico e um anti-inflamatório.

Enquanto esperava pelo raio-x, Ana foi com a bicicleta procurar por algum hotel próximo, caminhei pelos corredores do hospital vazio, era bem grande, procurei pela enfermaria que me aplicou a anti-tetânica, depois achei a farmácia que me forneceu um dos medicamentos, o outro devia comprar numa farmácia privada. Fui até o raio-x e aguardei, alguns pacientes mais graves foram atendidos na minha frente, depois foi minha vez. Havia várias pessoas acidentadas por moto e todos me perguntavam se também caí da moto, quando falava que caí da bicicleta faziam uma cara meio de espanto, não havia muito costume de pessoas andarem de bici, quanto mais caírem de bicicleta.

Com duas chapas de raio-x fui ao médico que constatou que não havia fratura, era só a luxação da cartilagem, sai de lá  esperei Ana voltar, enquanto isso fui na farmácia e comprei o remédio que faltava e material para fazer os curativos.

Ana chegou e fomos empurrando minha bike até o hotel, lá fiquei bem instalado e procuramos descansar, tomei um banho com auxílio da Aninha e dormi, depois ficamos pondo gelo no nariz para desinchar. Ao redor dos olhos foi se formando um roxo que completou minha alegoria.

Mais tarde avaliamos que seria melhor passar mais um dia no hotel e só na quarta-feira irmos de ônibus até Asunción. Ana comprou comida pronta em um restaurante do super-mercado a frente e passei o resto do tempo vendo TV, principalmente um canal do governo venezuelano, além de alguns canais brasileiros que pegavam por lá. A programação da TV paraguaia que vimos era muito ruim, com várias propagandas com erotização e coisificação das mulheres, forte apelo sexual e jogos e sorteios. Parecida com nossa TV aberta.

Um pouco de férias…

Uma pedalada de 49 quilômetros até Dr Juan Eulogio Estigarribia, tomamos café no quarto, nos preparamos e antes de sair tiramos uma última foto do Hotel, com o telefone para quem se interessar.

As ruas são difíceis de pedalar, calçadas com pedras antigas, parecendo-nos as mesmas nos últimos 200 anos.

A estrada era como todas as estradas… reduto para pessoas armadas com seus carros… … não era muito movimentada, mas a velocidade dos carros era intensa. Dividíamos o acostamento com as motos que eram muitas, todos andavam de moto, crianças, idos@s, famílias inteiras (na mesma moto), motos carregando bezerros, madeira, móveis, pessoas sentadas de lado no banco, inacreditável.

O acostamento era bom, mas a cada 100 metros haviam pequenas lombadas, algumas nem tão pequenas assim, pareciam morrinhos, mas uma coisa muito legal acontecia, ao que parece as pessoas vinham com talhadeiras e cortavam as lombadas para as motos passarem.

Essa lombada não estava com o cimento muito bem tirado, mas certamente voltariam para terminar o serviço.

Aqui no Brasil nos acostamentos são colocadas peças com olho-de-gato usando da mesma lógica: evitar que os carros andem pelo acostamento, só que se esquecem de deixar um vãozinho para as bicis. Mas, ao que parece, esta estratégia paraguaia já vem sendo adotada por aqui, temos visto em algumas estradas com lombadinhas no acostamento, que as mesmas vem sendo retiradas para permitir a passagem das bicicletas. Creio que os próprios ciclistas tem se dado a esse trabalho, já que o DER não toma esta providência.

Apesar da língua oficial ser o espanhol a maioria da população fala mesmo o guarani e tivemos a bela surpresa de ver uma placa nessa língua milenar.

A paisagem em torno da estrada era muito bonita, gramados cobertos com a sombra de árvores e muitas redes de volei, mas em uma delas vimos que jogavam era futevolei e jogavam muito bem.

Uma coisa nos surpreendeu na paisagem, entre as grandes plantações de soja vimos uma fileira de placas de agrotóxicos, transgênicos e outras pragas modernas que destroem as plantações, patenteiam as sementes e envenenam as pessoas.

Inclusive, sobre esse assunto gostaríamos de recomendar o vídeo: O veneno está na mesa.

Na chegada à cidade encontramos 3 hotéis, o primeiro estava em reforma, o segundo era pequeno e o terceiro era o maior sonho de consumo. O preço muito bom, alguns milhares de guaranis, que para nós representava um valor baixo.

Chegamos não era meio dia, antes de mais nada pulamos na piscina, que tinha até hidro-massagem, depois fizemos nosso almoço ali mesmo, mas de repente o inesperado, nosso gás de tantas batalhas acabou. Normalmente costuma durar mais de uma viagem, pelo menos 2 semanas, mas ele devia estar com defeito ou já usado, quem sabe?

Ana pediu para a atendente do hotel, aliás todos eram muito simpáticos, para usarmos a cozinha do hotel, assim terminamos de cozinhar e comemos nossa bela refeição nesse lindo visual.

O quarto tinha no fundo uma pequena varanda, em frente a piscina, onde deixamos nossas bikes.

Vivemos um dia de férias e descanso, já a noite procuramos um lugar para jantar e encontramos uma churrascaria, bom preço, mas era estranho, como é interessante essas singularidades, o restaurante em todas as mesas tinham crianças, famílias com 4 filhos, todos loirinhos, ao nosso lado uma mesa que tinha um cercadinho para deixar os filhos. Usavam roupas antigas… as mulheres usavam cabelos compridos com presilhas… me lembrei do filme “A Vila”, parece que viviam isolados da civilização… talvez morassem no campo e viessem aos sábados jantar na cidade… nunca vimos tantas crianças num restaurante.